Uma prioridade chamada China

Fonte Jornal da Unicamp 04/09/2014 às 9h

Uma prioridade chamada China

Vice-reitor de Relações Internacionais elenca ações estratégicas para reforçar cooperação com país asiático.

A China é um país prioritário, e a Unicamp precisa ampliar o seu relacionamento com as universidades daquele país. A demanda é exposta pelo professor Luís Augusto Barbosa Cortez, titular da Vice-Reitoria Executiva de Relações Internacionais (Vreri) da Unicamp. Ele justifica: “Tem havido, nos últimos anos, uma intensificação do relacionamento comercial entre os dois países. Os chineses são, hoje, os principais parceiros comerciais do país. A Unicamp, como uma das universidades mais importantes do Brasil, deve preparar seus recursos humanos para ter condições de dialogar com os chineses, de entender a sua cultura, de trabalhar nas empresas chinesas instaladas aqui e contribuir para equacionar problemas concernentes aos dois países. Nosso papel é tentar fortalecer este relacionamento, enviar estudantes nossos para lá e formar esses recursos.”

O vice-reitor executivo de relações internacionais da Unicamp elencou, durante entrevista ao Jornal da Unicamp, uma série de ações estratégicas que vêm sendo desenvolvidas para reforçar a cooperação científica e acadêmica com a China. Ele citou a contratação de uma nova funcionária, com domínio do mandarim, para facilitar a interlocução entre pesquisadores da Unicamp e de universidades chinesas; a instalação de um posto do Instituto Confúcio na Unicamp; o estímulo à ampliação de projetos de pesquisas relacionados aos dois países; e o envio de delegações a universidades chinesas para a prospecção, visando futuras parcerias. Cortez também apontou áreas de pesquisa prioritárias para a resolução dos problemas dos dois países, mencionando os principais desafios e oportunidades no plano da cooperação científica com a China.

Jornal da Unicamp – Como tem sido, no contexto atual, as prioridades e investimentos da Unicamp para aumentar as relações com a China?

Luís Augusto Barbosa Cortez – A Unicamp já tem alguma relação com a China e estamos tentando intensificar esse relacionamento. Há menos de um ano contratamos uma funcionária com domínio do mandarim, para facilitar a interlocução entre pesquisadores da Unicamp e de universidades chinesas. Ela se chama Yu Pin Fang, é natural de Taiwan e ex-aluna da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp. Existem várias outras ações também, como a instalação do Instituto Confúcio na Unicamp. Estamos participando do programa Top China, do Banco Santander. Este ano coordenaremos o projeto, com o envio de estudantes e duas docentes: a professora Gabriela Celani, da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, e Carmenlucia Soares, da Faculdade de Tecnologia. Nós também enviamos uma equipe de docentes e assessores da Vreri à China há um mês para intensificar o relacionamento. A China é um país prioritário para a Unicamp. Tem havido, nos últimos anos, uma intensificação do relacionamento comercial entre os dois países. Os chineses são, hoje, os principais parceiros comerciais do país. E a Unicamp necessita aumentar o seu relacionamento com a China.

JU – A instalação de um posto do Instituto Confúcio no campus da Unicamp é uma medida que vem sendo amadurecida nos últimos anos. Qual a sua importância?

Cortez – Cada país de grande porte tem uma estratégia de entrar com seus interesses na comunidade mundial. British Council, no Reino Unido e Aliança Francesa, na França, são algumas dessas estratégias. E a China desenvolve isso para a sua internacionalização por meio dos Institutos Confúcio. Só nos Estados Unidos são mais de 100. No Brasil são 10. E nós somos um deles. É uma instituição oficial do governo chinês e o seu objetivo é o ensino de mandarim e a disseminação da cultura chinesa no mundo. Em decorrência do Instituto Confúcio, começamos a ter de forma mais estruturada o relacionamento com uma universidade chinesa, a Beijing Jiaotong University. A Beijing Jiaotong é a nossa universidade parceira, madrinha, vamos dizer assim, para o funcionamento do Instituto Confúcio. Nós iremos nos relacionar com ela, e este relacionamento envolve desde ações técnicas, até ações culturais, o ensino da língua, entre uma série de outras coisas.

JU – Como está o andamento desta proposta?

Cortez – O reitor José Tadeu Jorge assinou, recentemente, um convênio para instalação do Instituto. A ideia é que o funcionamento comece em 2015. Inicialmente, funcionará na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), até que um local próprio seja definido.

JU – Em quais áreas prioritárias o senhor acha que pesquisadores da Unicamp e de universidades chinesas podem colaborar visando a resolução de problemas, tanto do Brasil, como da China?

Cortez – Um exemplo é que esta universidade madrinha, a Beijing Jiaotong, tem na área de transportes ferroviários uma das suas fortes especialidades. E esta é uma área muito importante e estratégica para o Brasil, inclusive no relacionamento com a China. Dos produtos que o Brasil exporta para a China, os principais são minério de ferro e soja. E eles dependem muito de transporte. E o transporte, quando não é feito adequadamente, encarece muito os produtos. Tem também a logística do transporte urbano que, principalmente, a região de São Paulo necessita muito. Recentemente foi muito discutida esta questão dos trens para ligar o Rio de Janeiro, Campinas e São Paulo. E eu acho que a Unicamp pode se capacitar para ajudar a formar recursos humanos a equacionar esses problemas.
 

Neste grupo que vai à China, temos professores das faculdades de Engenharia Mecânica, de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo e de Tecnologia. Há especialistas em transportes, construção, ocupação urbana, resíduos sólidos e poluição. Este é um grande problema lá, que está associado à questão da urbanização. Portanto, estas ações que nós estamos começando vão ter desdobramentos em outras áreas aqui dentro da Unicamp. Esperamos que comece mais forte no campo da engenharia, tecnologia e meio ambiente e que haja desdobramentos em outras áreas, incluindo a medicina, ciências humanas e economia.

JU – Há um Grupo de Estudos Brasil-China, constituído por pesquisadores e docentes da Universidade. Como tem sido a interlocução entre a Vreri, no campo institucional, e este grupo, no campo da pesquisa? 

Cortez – Antes de enviarmos uma missão à China, tivemos uma conversa com este grupo de pesquisadores. Eles têm projetos de pesquisa específicos. O que nós estamos buscando, evidentemente, é fortalecer estes grupos, mas queremos ampliar para a Universidade, queremos descobrir outros interesses. E que eles se tornem cada vez mais interesses acadêmicos também. Queremos fortalecer o ensino de chinês na Unicamp, trazer pesquisadores da China e, sobretudo, diversificar o espectro. Assim como acontece com os Estados Unidos - país que tem um grande número de pesquisadores na Unicamp, além de professores e alunos da Unicamp que atuam em parceria com universidades americanas -, nós queremos que esse elenco com a China aumente. 

O objetivo é verticalizar, sem deixar também de horizontalizar este relacionamento e fazer com que, dentro de um tempo de dois ou três anos, isso seja consolidado em outras áreas. Percebemos que a Educação Física tem grande interesse na China, a própria Economia, a Engenharia de Alimentos... Portanto, o relacionamento com o chamado Grupo China é do interesse institucional da Universidade, sobretudo pela sua ampliação. É um grupo que nasceu do zero e tem um papel muito importante.

JU – Quais são os principais desafios e oportunidades no plano da cooperação científica com a China?

Cortez – As áreas mais evidentes de cooperação científica estão entre três e quatro eixos. Temos a questão ambiental. A China é um país enorme, com uma população de 1,2 bilhões de pessoas. O país tem problemas ambientais importantes, como a poluição atmosférica. Esse é um dos desafios das grandes cidades chinesas. Há o problema da deposição dos resíduos, e isso nos interessa muito também. Embora não tenhamos a mesma população da China, temos áreas no Brasil com praticamente a mesma densidade de lá.

A questão energética é uma área interessante porque os chineses estão fazendo ações importantes, direta e indiretamente, para a redução de emissões e promoção de energias renováveis. Há ainda a questão ligada ao comércio e diplomação. Isso nos interessa muito porque fazemos parte dos Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], cuja principal ação recente foi a criação de um banco de desenvolvimento. O Brasil e a China são dois parceiros importantes, eles se complementam. Nós temos uma agricultura muito forte e a China precisa desse nosso conhecimento. A exploração mineral e o petróleo são campos promissores também. 

A China tem uma forte influência na região do Pacífico, que pode ser considerado, atualmente, como o novo centro comercial do mundo - o comércio mundial está se deslocando para lá. Todos os países que estão na costa do Pacífico estão sendo beneficiados, como o Chile, o Peru, os latino-americanos. O Brasil, evidentemente, tem interesse em criar canais de escoamento dos seus produtos para o Pacífico. Há uma barreira importante que são os Andes, tem um caminho que se faz por Mendoza, na Argentina, e Valparaiso, no Chile. Mas tem outras possibilidades que agora devem se tornar realidade com o escoamento de grãos, pelo Peru, ganhando o Pacífico, para diminuir os custos de exportação da soja, principalmente. 

Portanto, a Unicamp, como uma das universidades mais importantes do Brasil, deve preparar recursos humanos com condições de dialogar com os chineses, de entender a sua cultura, de trabalhar nas empresas chinesas instaladas aqui e contribuir, com os conhecimentos desta interação, para resolver os problemas dos dois países. Nosso papel é tentar fortalecer este relacionamento, enviar estudantes nossos para lá, e formar esses recursos. Nossa esperança é que o relacionamento cresça bastante nos próximos anos.

Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 04/09/2014 ás 9h

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