Um centro voltado aos estudos sobre nutrição

Fonte Jornal da Unicamp 27/08/2014 às 9h

Um centro voltado aos estudos sobre nutrição

Pesquisadores da Unicamp envolvidos no recém-criado Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão – Obesity and Comorbidities Research Center (Cepid OCRC), encabeçado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), caminham com os olhos fitos no desenvolvimento do primeiro centro de alimentação e nutrição do Estado de São Paulo.

Um dos resultados desse projeto, já em andamento, se vislumbra com a construção de um museu de nutrição, que possivelmente ficará alocado em uma área da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), em Limeira. Está sendo idealizado um museu interativo, com laboratório para demonstrações à população em geral.

As tratativas estão acontecendo. Mas, até o fim desse primeiro período de cinco anos do projeto (de outros dez anos de duração), estima-se que ele esteja em pleno funcionamento.

“O novo museu terá como modelo o Museu Exploratório de Ciências. Pretendemos ter um espaço do mesmo nível. É algo novo para o campus novo de Limeira. Para isso, já temos boa parte da verba, e à Unicamp caberá a cessão de uma área para abrigá-lo”, menciona o coordenador-geral do projeto Lício Velloso, docente da Faculdade de Ciências Médicas (FCM).

A notícia vem em boa hora, de acordo com o coordenador, pois, recentemente, um dos três principais jornais médicos do mundo – o britânico Lancet –, publicou um estudo em que pesquisadores fizeram uma revisão na literatura sobre a obesidade nos últimos 30 anos. A conclusão à que chegaram foi que nada que o ser humano inventou até hoje funcionou para tentar conter ou diminuir o seu avanço.

Os estudiosos chamaram a atenção para a gravidade da situação atual. Segundo eles, o quadro não só pode como deve piorar e infelizmente ainda não foi encontrada nenhuma solução para esse grave problema de saúde pública.

Nos Estados Unidos, 40% da população já é considerada obesa e, no Brasil, o percentual ultrapassa os 20%. Estima-se que até 2025 suplante os 25%, ou seja, a obesidade atingirá o contingente dos 50 milhões de pessoas. Não obstante o panorama ser para lá de pessimista, ela deve aumentar ainda mais, garante Lício Velloso.



Escolas

Além de desenvolver pesquisa e inovação na área de obesidade e doenças relacionadas, outra finalidade do projeto, como um todo, é acolher na Universidade estudantes do ensino médio por meio de atividades educativas mensais, com vistas a atingir uma maior qualidade de vida com uma boa alimentação.

O professor do Instituto de Química (IQ) Ronaldo Aloise Pilli, responsável pela difusão científica do Cepid OCRC, conta que a equipe de pesquisadores traçou um plano de trabalho para os primeiros anos, atuando em diferentes frentes.

Uma delas residirá em buscar uma maior inserção dos laboratórios da Unicamp dentro dos programas já existentes na instituição para estudantes do ensino médio, em particular o Ciência & Arte nas Férias (CAF) e o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (Pibic EM), financiado pelo CNPq e Fapesp.

De acordo com Ronaldo Pilli, nesse momento, o olhar é sobre os estudantes de escolas públicas de Campinas e região, uma vez que um dos braços do projeto tem em vista os aspectos preventivos da obesidade. Foram inclusive planejadas para este ano oficinas que devem receber, nas dependências da FCM, dez escolas do ensino fundamental de Campinas, além de outras escolas públicas do ensino médio.

Durante o período do dia que participam da oficina de nutrição e alimentação, entre 60 e 90 alunos são apresentados a todos os aspectos relacionados ao que é saudável em termos de alimentação e aos impactos em suas vidas decorrentes de um tipo de vida mais sedentário.

Eles montam o seu próprio lanche com ingredientes à sua escolha, guiados por monitores, para que façam uma alimentação mais adequada.

Na oficina antropométrica, medem o índice de massa corporal (IMC), para calcular se estão com o peso ideal. Na oficina de sangue, esses jovens são estimulados a pensar na possibilidade de serem futuros doadores. Depois, com a ajuda do jogo de cartas Super Trunfo, checam se conseguiram captar os conceitos aprendidos em atividade realizada na FCM. As oficinas já tiveram início em abril deste ano e devem continuar no segundo semestre.

O Cepid OCRC também estabeleceu uma parceria com duas escolas do ensino público, que têm tanto ensino fundamental quanto ensino médio. São elas a Escola Estadual “Barão Geraldo de Rezende”, no distrito de Barão Geraldo, e a Escola Estadual Miguel Vicente Cury, na Vila Padre Anchieta.

As duas escolas, que somadas reúnem mais de dois mil estudantes, foram indicadas pelos dirigentes de ensino de Campinas, da diretoria Leste e da Oeste. “Pretendemos trabalhar com eles e, além de incorporá-los a essas oficinas, também estamos programando levá-los a visitas em instituições de pesquisa e em museus. Já pensamos no Museu Exploratório da Unicamp e no Instituto Butantan”, relata.

Outras atividades que estão em andamento e deverão ser implementadas no segundo semestre são a organização de feira de ciências nessas escolas, aulas demonstrativas sobre ciência e tecnologia, palestras de orientação vocacional e palestras públicas abordando obesidade e outros temas dentro da competência profissional da equipe envolvida no projeto e que podem ser agendadas por diretores e coordenadores de ensino. Isso sem falar na estratégia de envolver professores dessas escolas num programa para trabalhar de forma coordenada ao projeto.

A intenção é cobrir um público, neste primeiro ano, da ordem de mais duas mil crianças, que é o contingente das duas escolas. “Estamos ainda trabalhando com as escolas do ensino fundamental nas oficinas de nutrição e alimentação”, explica Ronaldo Pilli.



Equipe

Os professores que integram este grupo trabalham com obesidade, diabetes, hipertensão, cardiologia, doenças renais, câncer, fisiologia, infecções, bioenergética, na área química [novos medicamentos vão surgir dessa associação] e nas áreas de educação física e de sono, conta Lício Velloso.

São 14 nomes selecionados da comunidade científica brasileira. Na Unicamp, além de Lício Velloso, são eles os professores Ronaldo Aloise Pilli, Aníbal Vercesi, Antonio Carlos Boschero, Everardo Magalhaes Carneiro, Heitor Moreno Junior, Helena Coutinho Oliveira, José Antonio Gontijo, José Barreto Carvalheira, Mario Saad e Wilson Nadruz Junior; e na USP São Carlos Eduardo Negrão, Silvana Bordin e Heraldo Possolo de Souza.

O Cepid OCRC terá como desafio buscar soluções para a obesidade, que resulta de um desequilíbrio entre a ingestão calórica e o gasto energético, geralmente associado a múltiplas doenças que, juntas, constituem a síndrome metabólica.

Apesar do avanço na caracterização dos mecanismos de controle da fome, a complexidade dos circuitos neurais e as dificuldades anatômicas para os estudos do hipotálamo humano dificultam o tratamento da obesidade.

Então, além de compreender os seus mecanismos, o Centro buscará novas abordagens farmacológicas, nutricionais e físicas para o problema. Investirá em programas preventivos e em métodos de triagem para a detecção de doenças associadas, em estreita relação com a indústria.

Lício Velloso comenta que tudo começou com uma chamada da Fapesp para constituir grupos de pesquisa em determinadas áreas do Estado de São Paulo, onde se esperava que cientistas de áreas afins se unissem para conduzir projetos não totalmente convergentes, mas que tivessem o mesmo foco.

A escolha do tema, conforme ele, tem uma razão epidemiológica muito significativa, que é o número de pessoas do planeta que estão progredindo para a obesidade e outras doenças. “Isso aumenta os gastos com saúde pública e aumenta o sofrimento das pessoas”, afirma. “Logo, é importante ter um investimento maior em pesquisa nessas áreas para buscar outras soluções.”

A Fapesp destinou a princípio ao projeto cerca de R$ 17 milhões para os primeiros cinco anos. “Os recursos contemplam a compra de equipamentos, reagentes e bolsa de pós-graduandos e pós-doutorandos. Devemos ainda ter uma contrapartida da Unicamp quanto à verba de infraestrutura. Nesse momento, o Cepid OCRC já conta com bolsas e começou a receber algumas importações”, revela.

Nesse primeiro ano do projeto, o seu coordenador o qualifica como exitoso. “Já conseguimos mais ou menos 120 publicações, algumas delas excepcionalmente boas. Implantamos boa parte do processo de difusão com os alunos de ensino fundamental e há várias atividades em andamento”, diz.

A Unicamp sedia dois outros dos 17 Cepids existentes, ligados a outras instituições: o Instituto de Pesquisa sobre Neurociências e Neurotecnologia, comandado pelo neurologista Fernando Cendes, e o Centro de Pesquisa em Ciência e Engenharia Computacional, comandado pelo professor do Instituto de Química Munir Salomão Skaf.

Trata-se de projetos de longo prazo em que, junto com pesquisa e inovação, têm também como missão fazer divulgação científica. A Fapesp visa financiar a implantação e as atividades de centros de pesquisa multidisciplinares que, simultaneamente, desenvolvam mecanismos de transferência dos resultados desses estudos para a sociedade.
Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 27/08/2014 ás 9h

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