Primeira Casa do Mel do Amazonas é inaugurada

Fonte Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia 15/09/2014 às 11h
Com potencial para a prática da meliponicultura e um número significativo de criadores de abelhas sem ferrão, o município de Boa Vista do Ramos (AM) é o primeiro do Amazonas a inaugurar uma Casa do Mel nos padrões exigidos legalmente.

A Casa, que funcionará como um entreposto para beneficiamento do mel de abelhas sem ferrão da região, foi inaugurada e contou com o apoio do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) e Associação Nordesta Reflorestamento e Educação.

A Casa do Mel é uma iniciativa da Cooperativa dos Criadores de Abelhas Indígenas da Amazônia de Boa Vista do Ramos (Coopmel), que desde o início dos anos 2000 desenvolve a meliponicultura (criação e manejo técnico de abelhas) e enfrenta os desafios legais para a certificação dos produtos para a comercialização. O objetivo é proporcionar produtos de qualidade e renda extra para cerca de 70 famílias de 23 comunidades rurais situadas em cinco regiões do município (Lago Preto, Rio Urubu, Ramos de Cima, Ramos de Baixo e Massauari).

“A inauguração da Casa do Mel reflete o interesse e o esforço interinstitucional conjunto na capacitação dos cooperados para o desenvolvimento comercial da meliponicultura no Amazonas”, disse a líder do Grupo de Pesquisas em Abelhas do Inpa (GPA-Inpa), a pesquisadora Gislene Carvalho-Zilse, destacando que neste ano foram realizados treinamentos diversos pela equipe do GPA num processo contínuo de capacitação de 76 meliponicultores.

De acordo com o técnico do GPA, Hélio Vilas Boas, os meliponicultores receberam técnicas específicas sobre boas práticas de produção, coleta e transporte do mel até a Casa do Mel, processamento, armazenamento e embalamento de mel para comercialização.

Para o técnico operacional da Casa do Mel, Jeremias Vieira, os treinamentos foram fundamentais, porque proporcionaram aos meliponicultures da região, por exemplo, a capacidade de identificar o melhor período para a coleta do mel. “Recebemos diversas informações técnicas e aprendemos muito, como o tempo certo de fazer a coleta, que começa em agosto, e fazíamos somente em setembro. Assim, estávamos perdendo dinheiro”, comenta.

A Casa do Mel está dotada de equipamentos que estão dentro das normas de higiene e condições sanitárias exigidas. A organização operacional da Casa e montagem dos equipamentos ficou a cargo do professor da Ufam, José Merched Chaar, que também é membro da OCB. Os meliponicultores vão enviar seus produtos para a Casa do Mel que, além de processar, embalar e rotular, também realizará as análises laboratoriais exigidas legalmente para garantir a qualidade dos produtos a serem comercializados.

O investimento realizado na adequação da Casa do Mel às exigências legais foi de cerca de R$ 800 mil, doados pela Associação Nordesta Reflorestamento e Educação, uma ONG suíça que investe e incentiva famílias da zona rural a criar abelhas nativas sem ferrão.

Vilas Boas explica que as abelhas sem ferrão não apresentam ferrão funcional e nem glândula de veneno, o que facilita o manejo e a criação por ribeirinhos e grupos indígenas. As abelhas sem ferrão mais utilizadas no Amazonas são a jandaíra (Melipona seminigra), a jupará (Melipona interrupta) e a abelha beiço (Melipona eburnea). Destas, a jandaíra é a mais produtiva chegando a produzir de 6 a 7 quilos por ano, quando bem manejada. Uma colmeia da jandaíra tem até 5 mil indivíduos.

Mercado

A Casa do Mel conta com um estoque de cerca de 300 quilos de mel, dos quais uma parte está embalada e outra ainda será beneficiada. Segundo o técnico operacional da Casa, Jeremias Vieira, a expectativa é obter cerca de quatro toneladas de mel até dezembro deste ano. “O município de Boa Vista do Ramos tem um grande número de meliponários, totalizando cerca de 3 mil colônias das espécies jandaíra e jupará”, contou.

A ideia dos dirigentes do entreposto é colocar no mercado regional os produtos meliponícolas com toda a higiene e condições sanitárias para o consumo e, também, trabalhar com os produtos fitoterápicos que agregam valor, como o mel com própolis e o mel com andiroba.

No cenário regional, o mel é mais utilizado como remédio em função de suas propriedades terapêuticas e pouco consumido como alimento no dia a dia, ao contrário do que ocorre em outros países. O mel é um alimento completo, funcional, com poder energético e fonte de muitas vitaminas.

Criação

A criação das abelhas sem ferrão brasileiras, também chamadas de Meliponineos, auxilia diretamente a polinização das flores, proporcionando frutos que servem de alimentos às aves, peixes, mamíferos e outros animais, além da dispersão de sementes para a perpetuação das espécies. Segundo o técnico do GPA-Inpa, Hélio Vilas Boas, as abelhas respondem por 40% a 90% da polinização das árvores nativas amazônicas.

De acordo com a Cartilha de Meliponicultura, produzida pela equipe do GPA-Inpa, existem no mundo cerca de 20 mil espécies de abelhas no mundo, boa parte delas conhecidas como abelhas solitárias, por não formarem colônias. Dentre as que formam colônias, de 300 a 400 espécies formam o grupo das abelhas sem ferrão, das quais quase 200 espécies deste grupo vivem no Brasil, especialmente na Amazônia. Por isso, a região é conhecida como o berço mundial das abelhas sem ferrão. Muitas plantas locais, como araçá e camu-camu, são polinizadas pelas abelhas sem ferrão, e algumas plantas dependem exclusivamente dessas abelhas para se reproduzir.


Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia
Fonte Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia 15/09/2014 ás 11h

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