Prestes a completar 80 anos, 'A Voz do Brasil' pode mudar de horário

Fonte Agência Senado 28/08/2014 às 12h

Prestes a completar 80 anos, 'A Voz do Brasil' pode mudar de horário

"Em Brasília, 19 horas". A frase, tão emblemática e tão conhecida pelos brasileiros, já faz parte da história do rádio mundial. Com esse jargão, o programa mais antigo do rádio nacional, A Voz do Brasil, que tem 79 anos, abria suas transmissões. O noticiário de rádio que está há mais tempo no ar no país, com registro no livro dos recordes, o Guiness Book, fará 80 anos em julho do ano que vem. Dividido entre notícias dos três poderes da República — Executivo, Legislativo e Judiciário —, A Voz poderá passar por mudanças. A principal é a possibilidade de flexibilização do horário de transmissão: os 60 minutos de programa, se aprovado projeto com esse teor, poderão ser transmitidos entre as 19h e as 22h.

O programa é tema de três projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional. Dois tratam da possibilidade de ­mudança do horário de transmissão e outro pretende transformá-lo em patrimônio cultural brasileiro.

O projeto de lei da Câmara (PL 595/2003) que trata da flexibilidade do horário de transmissão do programa foi apresentado pela deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC). O projeto original previa uma flexibilização ainda maior, das 19h30 à 0h30, mas, depois da aprovação na Câmara, recebeu no Senado o substitutivo do relator, o então senador Antonio Carlos Júnior, que o alterou para a versão atual, aprovada e reenviada à Câmara, onde aguarda ser incluída na ordem do dia.

Já o projeto de lei do Senado (PLS 19/2011) da ex-senadora Marinor Brito pretende tornar A Voz do Brasil patrimônio cultural imaterial do Brasil. Apesar de tratar de outro assunto no texto, Marinor fixou o horário do programa às 19h. Na justificação, ela explica a necessidade de valorizar o programa:

“Nós tomamos a inciativa no Congresso Nacional de elaborar o projeto com o objetivo claro de valorizar um instrumento da comunicação estatal brasileira, que, ao longo dos anos, vem servindo em muitas regiões brasileiras, às vezes, como o único canal de comunicação com o povo. O que acontece no Congresso Nacional, o que acontece no Brasil, só tem alcance em regiões como os vários estados da região da Amazônia através de A Voz do Brasil”, destacou a ex-senadora.

O projeto tramitou na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) e, aprovado, seguiu para a Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT), onde foi alterado pelo relator, Lobão Filho (PMDB-MA), para que fosse retirado o artigo sobre o horário fixo às 19h. Com a mudança, a proposta voltou à CE recentemente, onde aguarda relatório do presidente da comissão, Cyro Miranda (PSDB-GO).

Mais recente, o projeto de lei de conversão da Medida Provisória 648/2014 foi alvo de debates no Senado durante o período da Copa do Mundo. O tema da MP enviada pelo Poder Executivo ao Congresso tratava de flexibilizar a transmissão no período dos jogos da Copa.Porém, o relator da proposta na comissão mista da MP, senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), ­decidiu transformá-lo em lei e tornar a flexibilização ­permanente.

— O programa hoje significa uma imposição no dia a dia das pessoas. Com essa mudança, você dá opção para que, se elas quiserem, ouçam A Voz do Brasil naquele horário, às 19h, mas, se não desejarem, elas possam fazer a opção de uma outra ­frequência — defendeu o senador.

O relatório foi aprovado e seguiu para a Câmara, onde deve ser votado em Plenário no início de setembro.

Disputa acirrada

O debate sobre a flexibilização separa em dois lados especialistas e setores da sociedade civil. De um lado, o Movimento em Defesa de A Voz do Brasil: em Brasília, 19 horas. Do outro, a Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV (Abert).

De acordo com o diretor-geral da Abert, Luís Roberto Antonik, a flexibilização é um pleito antigo junto ao Congresso Nacional. Ele destaca que, na época em que foi criado o programa, o Brasil contava com apenas 40 emissoras de rádio AM e hoje já são mais de 10 mil.

— O programa foi criado na Era Vargas. A sociedade brasileira mudou muito nesse período de tempo. O rádio mudou muito e conseguiu sobreviver, mesmo com todas as tecnologias disponíveis. Mas, com A Voz do Brasil, o rádio não tem nenhuma chance — argumenta o diretor-geral.

Ele informa que, atualmente, um terço das emissoras é prejudicado pela exclusividade de transmissão no horário das 19h, principalmente as que têm notícias 24 horas. Os outros dois terços, ele explica, vão continuar optando por transmitir às 19h, pois o público prefere assim. No período da Copa do Mundo, 33% das emissoras modificaram seu horário de transmissão e, com isso, o faturamento aumentou em 0,55%. Isso equivaleria a um valor de R$ 55 mil/dia, dividido por todas as emissoras, que são cerca de 10 mil. Ele informa que o lucro não é o objetivo da mudança.

O jornalista Mário Augusto Jakobskind, integrante da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), apoia o Movimento em Defesa da Voz do Brasil: em Brasília, 19 horas.

Segundo ele, o caminho certo é a manutenção do horário fixo de A Voz do Brasil, que “é acompanhada por milhões de brasileiros, nos mais distantes rincões”.

— O programa tem uma grande audiência em setores da população que não têm acesso à informação através dos noticiários — afirma.

Para Jakobskind, a justificativa da Abert de trazer mais público é um pensamento totalmente comercial.

— É um absurdo o [projeto de flexibilização]. É uma forma inicial de acabar com A Voz do Brasil. Perde audiência de quem está acostumado com as notícias, quem não vive na cidade, mas sim nas áreas rurais. Se flexibiliza, quem vai fiscalizar 8 mil emissoras? — questiona.

O movimento conta ainda com apoio de entidades como Confederação Nacional da Agricultura (Contag), Federações Nacionais dos Jornalistas (Fenaj) e dos Radialistas, entre outras.


Produção da Rádio Senado no programa é modernizada

O Jornal do Senado, que vai ao ar dentro do programa A Voz do Brasil, ganhou uma nova produção.

A identidade sonora diferenciada, com vinhetas exclusivas e produzidas pela equipe da Rádio Senado, tem o objetivo de modernizar o noticiário de 10 minutos.

Foi feita uma mistura das vinhetas já adotadas na programação da rádio, com a tradicional ópera O Guarani, da abertura do programa.

O diretor-adjunto da Rádio Senado, Vladimir Spinoza, destaca que o objetivo foi modernizar o jornal e informou  que as novas vinhetas foram produzidas internamente, sem custo para o Senado.

— O nosso objetivo é modernizar a sonoridade do Jornal do Senado, levando aos ouvintes um noticiário atualizado, imparcial e ­transparente — explicou.


Ouvinte conta sua história sobre a Hora do Brasil

Todos os dias Alberto Francisco da Silva, 73 anos, escuta A Voz do Brasil. E esse “hábito”, que ele carrega desde os 11 anos de idade, o faz muito feliz.

— Comecei a ouvir [A Voz do Brasil] quando tinha 11 anos de idade. Antes era uma criança e não me ligava com as notícias, mas, quando passei a estudar, me interessei e daí nunca mais larguei. Toda a família, pais, tios e primos ouviam. A minha mãe dizia: “Menino, liga o rádio que está na Hora do Brasil”. Aí começava com aquela musiquinha conhecida e vinham as notícias — relembra Silva, aposentado por invalidez.

Conhecido em Rio Branco como Alberto Ceguinho, é ouvinte assíduo da Rádio Difusora Acriana, que tem 70 anos.

— Sou mais velho que a Rádio Difusora alguns anos, quase que faço aniversário junto com a Hora do Brasil — conta, usando o nome mais antigo do programa.

O aposentado, que mora sozinho, tem dois aparelhos de rádio e dois de televisão, mas se apega mesmo é ao rádio, que, para ele, é a fonte mais confiável de informações. Ele sabe tudo sobre o programa, que dedica os primeiros 25 minutos para o Poder Executivo, os 5 minutos seguintes para o Poder Judiciário e os 30 minutos restantes para o Congresso Nacional.

— Eu acho importante saber o que os parlamentares estão fazendo. Fui seringueiro por 27 anos, na fazenda do avô do senador Jorge Viana (PT-AC). Conheço todo mundo aqui e todo mundo me conhece — conclui.

A locutora aposentada da Voz do Brasil no Senado Federal, Thaís Vivacqua, trabalhou 28 anos na apresentação do programa, sempre revezando com o companheiro João Marques, que era titular desde 1974, mas também se aposentou, além de João Evangelista Narciso e Ozório Anchises.

Thaís entrou no Senado em 1984, como revisora da gráfica, mas logo foi convidada pelo diretor da antiga Subsecretaria de Divulgação, Washington Tadeu de Melo, para trabalhar no setor. Mais tarde, fez um teste para A Voz do Brasil. Aprovada, passou a trabalhar no programa.

— Eu trabalhava na gráfica e me chamaram para fazer um teste. De todas as vozes femininas, eu fui a única que passou. Depois tive que fazer um curso de impostação de voz para poder apresentar o programa — revela.

Thaís lembra que muitas vezes a voz dela foi reconhecida na rua. Contou que, em uma viagem a Fortaleza, ao entrar em um táxi, percebeu que o motorista ouvia a Rádio Senado. Ao conversar, ele se virou e a reconheceu, dizendo: “Puxa, você é a Thaís?”.


População tem opinião dividida sobre flexibilização das 19h


A médica Angela Maria Louzada Lacava, de 62 anos, é contra a mudança do horário de transmissão. Ela disse que ouve o programa porque tem a sensação de “saber das coisas como estão acontecendo” e gosta de ouvir o programa no carro, quando volta para casa.

— Me parece diferente da mídia. É muita opinião. Eu quero saber dos fatos. No programa você vê os fatos, ouve o que está acontecendo, e não o que querem que ache que está acontecendo. Me sinto mais segura ouvindo A Voz do Brasil — explica a brasiliense.


Marco Andric é administrador de empresas e mora na cidade de São Paulo. Ele diz conhecer o programa, mas não tem o hábito de ouvi-lo.

— Não tenho o costume, por uma razão simples: pelo fato de trabalhar em São Paulo, onde o trânsito é terrível. E o serviço de informações de trânsito coincide com a hora de A Voz do Brasil. Sou a favor da flexibilização do horário, pior horário do trânsito — declara o administrador.

Ele ainda destaca que, quando está dirigindo, desliga o rádio durante o programa.


A assistente social Eva Pompeu de Amorim, de 47 anos, disse que ouve A Voz do Brasil quase sempre, quando volta do trabalho, pois tem interesse em saber o que se passa.

— Como trabalho com políticas públicas, tanto trabalho, quanto educação, tenho interesse. Sei que no jornal posso ouvir tudo. Me atualiza de tudo que está acontecendo no Congresso, porque tem a ver com meu trabalho. Acho que a mudança une o útil ao agradável. Mas se pudesse permanecer às 19h, seria bem melhor. Mas não deixaria de ouvir — diz a cearense.


Saulo Chaplin mora no Rio Grande (RS), tem 29 anos e ouve o rádio com a mãe, quando ela liga para ouvir A Voz do Brasil.

— Minha mãe escuta e, às vezes, escuto com ela. Acho que, se houver flexibilização, passando para mais tarde, vai ficar no horário mais nobre, vai acabar concorrendo com outra programação que a população vai assistir mais. Vai dificultar porque vai concorrer com as novelas — avalia.

Ele se diz imparcial na decisão sobre a mudança do horário.

Agência Senado
Fonte Agência Senado 28/08/2014 ás 12h

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