Para ex-diretor do Banco Central, crise mundial abalou prestígio do Fórum de Davos

Fonte Agência Brasil. 26/01/2010 às 10h

Ex-diretor do Banco Central, o economista Carlos Eduardo de Freitas avalia que a economia mundial ainda está sob a ameaça de problemas financeiros. Segundo ele, persistem as incertezas nas economias dos Estados Unidos e da Europa. Nesta entrevista concecida à Agência Brasil, antes do 40º Fórum Econômico Mundial, Freitas fala do que deve ser discutido no encontro, o papel de Davos no pós-crise internacional de setembro de 2008 e faz uma análise das perspectivas econômicas do Brasil.

Agência Brasil: Na sua avaliação, o que vai dominar as discussões deste ano no Fórum Econômico? E o que precisa ser debatido?
Carlos Eduardo de Freitas: Acredito que a discussão este ano deve ser dominada pelo rescaldo da crise financeira que assolou a economia mundial, principalmente a partir do último trimestre de 2008, basicamente de 15 de setembro de 2008 em diante, com a falência do banco Lehman Brothers. No caso, os debates devem circular em torno, basicamente, de novas diretrizes para a supervisão dos sistemas financeiros, principalmente nos países mais ricos, e visando operações estruturadas inovadoras que estiveram no epicentro da crise. Outra questão é ampliar o escopo da fiscalização bancária, de modo a abranger o chamado shadow banking system, compreendendo instituições e firmas que trabalham como bancos, fazem o que fazem os bancos, mas não são bancos no sentido estritamente legal de modo que escapam às regras que comandam os bancos. Existe ainda um ponto sobre a maior centralização da fiscalização do sistema financeiro no Banco Central, ou numa única instituição. No Reino Unido, foi criada há alguns anos uma agência de fiscalização financeira a partir da Divisão de Supervisão Bancária do Banco da Inglaterra. Na minha opinião, deveria ser centralizada no Banco Central. A própria idéia de autonomia dos bancos centrais pode ser discutida. Afinal, nos Estados Unidos e Reino Unido, epicentros da crise, os respectivos bancos centrais eram independentes.

ABr: É hora de desmontar os mecanismos de reação do Estado à crise de 2008, os subsídios, por exemplo, os incentivos fiscais? Ou ainda é cedo para isso?
Freitas: Esse é o outro tema de grande interesse e também de controvérsia. Há receios concretos de insustentabilidade da dívida pública americana. O historiador econômico Niall Ferguson fez um artigo bastante pessimista a esse respeito. Já se nota um receio de inflação nos Estados Unidos, por exemplo, que estão emitindo títulos públicos com correção monetária. O Brasil e a China, por exemplo, estão dando absoluta preferência a esse tipo de papel, ao que pude ver. É uma absoluta novidade nos 40 anos que acompanho a economia brasileira e a economia mundial. Nunca pensei em ver isso.

ABr:O senhor acredita que as discussões do Fórum estão enfraquecidas?
Freitas:  De certa forma sim, porque o prestígio do Fórum decorreu de um momento mágico do neoliberalismo. Davos encarnava a celebração anual do sucesso do capitalismo. Com a crise, o moral do liberalismo econômico ficou certamente abalado e o prestígio de Davos caiu. Não significa que o mundo vai aderir ao socialismo, que sucumbira antes. As coisas parecem estar mais para um capitalismo com intervenção e presença estatal bem mais forte. Davos pode se reinventar e passar a discutir com seriedade os novos caminhos do capitalismo. Por exemplo, com a crise dos anos 30 do século passado, a própria teoria econômica acabou avançando, e muito, com Keynes.

ABr: Há um ano a maioria das previsões para a economia mundial era de uma crise com momentos de melhora e nova piora. De modo geral, essa análise está ultrapassada ou ainda há incertezas pela frente?
Freitas:  A meu ver há incertezas pela frente. Nos Estados Unidos, há sinais ambíguos, por exemplo, no que concerne ao mercado de trabalho. O desemprego, que continuaria elevado, pode acabar contaminando a demanda e provocar nova onda recessiva na economia americana. Além disso, tem a situação financeira complicada da Grécia, com déficit fiscal de 12% do PIB que vinha sendo maquiado, o que é incrível . E agora também de Portugal, Espanha, e outros. Alguns analistas de peso disseram que uma queda envolvendo a Comunidade Européia poderia fazer a crise de 2008 parecer algo muito pequeno.

 

Agência Brasil.
Fonte Agência Brasil. 26/01/2010 ás 10h

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