Guerra e negócios se misturam no Sudão do Sul

Fonte Agência Brasil 04/06/2012 às 10h

Juba, Sudão do Sul - Na televisão pública sul-sudanesa, a SSTV, o tema é um só: guerra. Nos telejornais, há acusações e discursos contra o inimigo figadal do Norte, o Sudão. Entrevistas de militares, cenas de treinamentos de soldados, mísseis sendo disparados e pronunciamentos oficiais de comandantes de tropas são o destaque da programação. Em outros momentos, há inusitados videoclipes em que todos dançam e cantam fardados e exibindo fuzis.

Nas ruas, há um clima pesado. Muita gente anda armada e nem todos gostam de câmeras ou de jornalistas. Por diversas vezes, pessoas reclamaram quando estavam sendo filmadas e, não raro, com gestos de ameaça. A guerra domina de fato as mentes e as atenções no país.

Vivendo há três meses em um hotel condomínio exclusivo para estrangeiros e vigiado for homens armados, um coronel aposentado dos Estados Unidos, dono de uma consultoria privada, chefia uma equipe de 30 ex-militares norte-americanos, contratados pelo governo local para treinar soldados. O país se esforça para transformar os guerrilheiros do Exército de Libertação do Povo do Sudão em soldados profissionais, agora que o grupo virou a força oficial do Estado sul-sudanês depois da independência. Segundo ele, os soldados “aprendem rápido, são muito dedicados”.

O presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, tem viajado pelo mundo em busca de novas relações comerciais e de dinheiro para bancar a infraestrutura. Esteve na China, com o presidente Hu Jin-Tao, em busca de financiamento para um oleoduto que passe pelo Quênia, no caminho para o mar, evitando o Sudão; visitou, em Londres, o primeiro-ministro David Cameron. Em ambos os casos, longas reportagens da TV pública local noticiaram as viagens durante todo um fim de semana. O britânico Cameron chegou a dar à emissora estatal sul-sudanesa uma entrevista exclusiva, destacando a falta de escolas no país africano, que deixa 1 milhão de crianças sem acesso à alfabetização. “A luta real deve ser para que elas estudem”, declarou o chefe de Governo britânico.

Correspondente da EBC narra detalhes da detenção e expulsão do Sudão do Sul

Juba (Sudão do Sul) - “Jornalistas não são bem-vindos a países em guerra, o senhor não sabia?” Foi com essa frase que fui recebido no país por um militar do Exército de Libertação do Povo Sudanês (SPLA, na sigla em inglês), recém-convertido em Exército do Sudão do Sul. Eu não tinha reconhecido os militares, não estavam fardados, mas já tinha percebido os homens que nos vigiaram até a entrada do hotel, quando deram o bote. O resultado foi uma “prisão domiciliar” no quarto, só encerrada quando consegui antecipar nossa passagem de volta e fiz uma espécie de acordo para que nos acompanhassem ao aeroporto, 36 horas depois.

Os militares do país – quase todos – são da etnia Dinka, que representa um quinto da população sul-sudanesa, cerca de 2 milhões de pessoas. O restante se divide em mais de 50 grupos étnicos e imigrantes, a maioria dos países vizinhos. Os dinka são considerados o povo mais alto do mundo. Em Juba se diz que eles têm, em média, 1,91m de altura. Deve ser verdade.

Mulheres de salto alto, que as deixam com mais de 2 metros de altura, andam pelas ruas poeirentas de Juba. Os homens, em um ritual de passagem para a vida adulta, cortam a testa em linhas paralelas e passam um pó para que as cicatrizes fiquem ainda mais visíveis, para sempre, como uma tatuagem.

Praticamente todos os homens têm mais de 2 metros de altura. E são muito pretos, característica de quem não se mistura facilmente com outras etnias. Os primeiros dinkas chegaram a Núbia, atual Sudão, no século 10, provavelmente migrando da região que hoje em dia se divide entre o Quênia e Uganda. Eles resistiram, no século 13, à chamada Expansão Islâmica, aos ingleses no século 20 e capitanearam a independência do país, em julho de 2011.

O cinegrafista e cineasta moçambicano Nelson Mondlane, que me acompanhou na viagem, chegou a ser cercado por cinco dinkas armados de fuzis – que exibem com frequência como demonstração de força - e depois correr esbaforido para dentro do hotel. Eu fui atrás. Os soldados entraram, reviraram o quarto, revistaram bolsas e malas, olharam detalhadamente documentos e vistos, até que um deles decretou que não poderíamos sair dali até ordem em contrário.

“Não me interessa que você seja do Brasil ou de qualquer outro lugar. Aqui não é lugar para vocês”. Tentei argumentar que declarara ao oficial de imigração do aeroporto que era jornalista e estava a trabalho, pagara por um visto e recebera um welcome como resposta, mas não adiantou. “Nunca se sabe”, disse o soldado. Ficamos sob vigilância até mesmo quando fazíamos as refeições no restaurante do hotel.

As únicas imagens que conseguimos salvar foram registradas pela câmera de Mondlane, devidamente gravadas em um pendrive que ficou escondido no fundo de uma da malas. Na saída para o aeroporto, no terceiro dia após o ocorrido, um deles ainda tentou esboçar alguma simpatia. Brazil? I like football (Eu gosto de futebol). Mas, nem assim, conseguimos sorrir.

Agência Brasil
Fonte Agência Brasil 04/06/2012 ás 10h

Compartilhe

Guerra e negócios se misturam no Sudão do Sul