Circuitos turísticos ajudam a preservar heranças culturais italianas, conclui tese

Fonte Jornal da Unicamp 31/08/2014 às 11h

Circuitos turísticos ajudam a preservar heranças culturais italianas, conclui tese

Desenvolvida em Estados do Sul e do Sudeste, pesquisa mostra que convívio familiar e comunitário perpetua legado entre ítalo-descendentes.

Envolvido na questão da cultura ítalo-descendente desde a graduação, Marcelo Panis, no projeto de doutorado, decidiu abordar o uso desta cultura pela prática turística. “Circuitos turísticos ítalo-descendentes: o uso contemporâneo das heranças culturais no Sul e Sudeste do Brasil” é o título da tese orientada pela professora Maria Tereza Duarte Paes e defendida no Instituto de Geociências (IG). “Quis investigar como se dá o processo de conversão dos elementos do patrimônio material e imaterial em produtos turísticos, e se este processo ocorre de forma a artificializar a cultura ítalo-descendente, ou se realmente contribui para mantê-la”, explica o autor da pesquisa.

Marcelo Panis realizou pesquisas de campo no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo, Estados onde encontrou o que chama de circuitos turísticos ítalo-descendentes. Circuito é a terminologia que ele empregou para abarcar as diversas classificações e se referir a lugares que ganham nomes diversos – Rota do Vinho, Caminho de Pedra, Estrada do Imigrante, por exemplo, – aonde os visitantes vão para terem contato com as representações dessa cultura. “Visitei onze circuitos e entrevistei empreendedores, autoridades de turismo e agências, além de disponibilizar questionários aos turistas. Fiz ainda um levantamento fotográfico bastante rico, com mais de duas mil imagens.”

Observando que os circuitos turísticos ítalo-descendentes, em geral, são iniciativas familiares e não de grupos econômicos como no turismo mais profissionalizado, o autor da tese adianta algumas das principais conclusões do estudo. “O turismo contribui para a manutenção da cultura, mas não é pelo turismo que a cultura se mantém; é pelo convívio familiar e comunitário, cotidianamente e que fortalecem os vínculos de pertencimento à cultura: o dialeto, as cancionetas, as receitas de pratos tradicionais e produtos de toda sorte, como queijos, embutidos, compotas e, obviamente, o vinho, que costuma ser o carro-chefe do negócio. Tudo isso reunido nos saberes e conhecimentos herdados, junto com os bens materiais remanescentes.”

Segundo Panis, o turismo traz uma contribuição importante para o rendimento familiar, embora a principal atividade, na maioria dos casos, seja ligada à agricultura – até porque é da terra que se tira parte dos produtos ofertados aos visitantes. “Não entrei em detalhes sobre os rendimentos, questionando apenas se eram suficientes. A maioria das famílias não pode sobreviver apenas do turismo, o que por vezes acarreta na não profissionalização. Aonde é grande a presença de turistas, como nos circuitos da Serra Gaúcha, há dedicação maior de tempo de trabalho à prática turística, que nesse caso representa parcela significativa dos ganhos. Dois aspectos bastante positivos da atividade são a ausência de intermediários e a inserção dos jovens, que têm assim um motivo para permanecer na área rural.”



Diferenças históricas

No primeiro capítulo da tese, o autor descreve o contexto europeu na segunda metade do século 19, especialmente na Itália, quando as transformações na economia da península provocaram um dos maiores movimentos migratórios da história contemporânea, por sua dimensão cultural e humana – evento que influenciaria também a formação socioespacial brasileira, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste. “No final do século 19 e início do século 20, o Sudeste estava em processo de substituição da mão de obra escrava pela assalariada nas fazendas de café, então a maior economia do país. E, no Sul, a necessidade de povoamento levou à criação das colônias de imigração, que estão na origem de muitos municípios.”

Marcelo Panis explica que as características do turismo ítalo-descendente diferem de acordo com a formação socioespacial de cada Estado. “A política de ocupação territorial se estendeu por todo o Sul. O Rio Grande do Sul foi o Estado que mais recebeu imigrantes italianos depois de São Paulo, em torno de 300 mil. Santa Catarina, onde se instalaram prioritariamente os alemães, ficou com a menor fatia do contingente de italianos que chegou ao país, mas que teve papel destacado na ocupação do solo e na constituição de cidades. As colônias do Paraná surgiram para abastecer o mercado consumidor de Curitiba e, ao contrário das demais, não ficaram isoladas do grande centro urbano. Já no Espírito Santo havia o objetivo de arregimentar trabalhadores para a economia cafeeira, principal atividade econômica do estado naquele período.”

Neste resgate histórico, Panis inclui uma nota sobre São Paulo, justificando a omissão na pesquisa do Estado que mais recebeu imigrantes da Itália do que todos os outros juntos. “São Paulo constituiu um modelo de imigração completo: fixou italianos na capital paulista, onde foram estratégicos para o desenvolvimento urbano-industrial; nas fazendas de café, atendendo à necessidade de substituição de mão de obra escrava pela assalariada; e, nos núcleos coloniais, que se transformaram em uma ‘espécie de territorialidade étnica italiana’. Por esta complexidade, e por não possuir nenhum roteiro turístico ítalo-descendente formatado, é que São Paulo ficou fora desta pesquisa.”



Documentos na paisagem

O pesquisador enxerga na paisagem dos circuitos turísticos ítalo-descendentes documentos que registram, historicamente, o percurso dos grupos de imigrantes no território, numa mescla das formas recentes com as antigas, preenchidas de conteúdos culturais. “No Sul e Sudeste vemos um misto de bens materiais imóveis – casas de madeira e de pedra, cantinas, moinhos, galpões, igrejas, capelas – que revelam conhecimentos e técnicas construtivas dos primeiros imigrantes e descendentes, e que guardam evidências históricas da sua chegada e permanência nas regiões coloniais. Esses bens materiais hoje são refuncionalizados, ou seja, passam a agregar novas formas de uso que garantem sua continuidade no tempo e espaço.”

Para o autor da pesquisa, também os objetos móveis, a exemplo dos instrumentos de trabalho, de lazer e de uso cotidiano, constituem parte deste arcabouço cultural. “São objetos que representam formas e materialidades antigas e que ainda possuem alguma função, ainda que convertidos em atrativos turísticos. Esses bens móveis, por vezes esquecidos em velhos galpões, passam a compor acervos de museus ou memorais destinados a homenagear a cultura e tradição ítalo-descendente de um município ou região, como os existentes em Pelotas (RS), Chapecó (SC), Bituruna e Colombo (PR).”

Marcelo Panis acrescenta que, apesar de a cultura ítalo-descendente ter se modificado no decorrer do tempo (“o que é próprio da dinâmica da cultura”), em muitos lugares são perpetuados ritos e festejos. “É o caso da Festa da Polenta, em Venda Nova do Imigrante [ES], que atrai pessoas de outras regiões e celebra uma italianidade capixaba – ou a ‘Itália que não existe na Itália’. Outro exemplo são as ‘jantas italianas’ típicas no Rio Grande do Sul, uma festa comunitária, não turística, com famílias que vivem em determinada linha ou faxinal (área rural equivalente a um bairro) e se reúnem para comer, beber, jogar, cantar, dançar e ‘parlar talian’ ”.


Resgate da italianidade

No que diz respeito ao resgate da italianidade, o autor da tese cita a retomada da produção de vinho pelos descendentes em algumas regiões coloniais, influenciados pelo turismo. “É possível verificar que houve um processo de resgate de técnicas produtivas e de multiplicação de cantinas e adegas, associado ao planejamento e organização de um circuito turístico na região. Em alguns casos, foram as práticas turísticas que contribuíram para o ressurgimento de práticas culturais, como em Bento Gonçalves [RS]: ali, um circuito de visitação de casas de pedra proporcionou iniciativas de preservação do patrimônio cultural e de resgate e manutenção de tradições, como a prática do talian, dialeto usado pela maioria dos descendentes de imigrantes.”

Panis reitera que os ítalo-descendentes seguiram caminhos diferentes, reforçando as peculiaridades de cada Estado, tendo se deparado, por exemplo, com um circuito em que o vinho não é o principal produto. “Em Venda Nova do Imigrante, o produto que faz sucesso é o socol – embutido semelhante à copa que está recebendo um selo de Indicação Geográfica (IG). Eles ofertam exatamente o que fazem e consomem, não criam artificialidades. No interior gaúcho temos muitos restaurantes que servem não a comida italiana que conhecemos hoje, mas aquela do tempo dos imigrantes: polenta, frango com molho, massas e carnes, pratos bem fortes que eram destinados a alimentar o trabalhador braçal que lidava com o terreno rústico.”

Questionados pelo pesquisador sobre as práticas herdadas dos antepassados, 72% dos entrevistados citaram a culinária, com destaque especial para a polenta consumida ao menos uma vez por semana pela grande maioria das famílias. “A segunda herança mais lembrada foi das práticas de lazer, entre as quais, os jogos como o quatrilho, bocha, dubelão, mora, três-sete e briscola; e as cantorias típicas em grupos de canto ou coral. O consumo do vinho e o cultivo e trato da uva, assim como a religiosidade, foram lembrados por 25% dos entrevistados, na terceira posição, seguidos do dialeto (13%), do trabalho (9%) e do artesanato (7%). A grande maioria (75%) aponta o convívio familiar como principal modo de transmitir saberes, fazeres e outros conhecimentos.”



A opção pelo turismo

Panis também procurou saber das famílias como se deu a opção pela atividade turística para complementar os rendimentos, sendo informado de que boa parte delas já recebia visitantes em suas propriedades. “Eram pessoas interessadas em determinado produto típico, sinalizando que ele podia ser comercializado. A cultura, portanto, antecede o turismo, que não foi uma consequência, mas uma ação pensada a partir daqueles visitantes individuais, que também antecedem o circuito turístico. Em quase todos os circuitos encontrei conselhos municipais de turismo – alguns mais efetivos e outros menos – formados pelo poder público, empreendedores e instituições parceiras que procuram elaborar atividades e estratégias de promoção. Os circuitos turísticos ítalo-descendentes constituem uma tendência irreversível: vão continuar existindo, seja como forma de complementar o rendimento familiar ou, mesmo, como iniciativas de fortalecimento da cultura.”



Publicação

Tese: “Circuitos turísticos ítalo-descendentes: o uso contemporâneo das heranças culturais no Sul e Sudeste do Brasil”
Autor: Marcelo Panis
Orientador: Maria Tereza Duarte Paes
Unidade: Instituto de Geociências (IG)
Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 31/08/2014 ás 11h

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