Tese mostra que pessoa com deficiência pode fazer kung fu

Fonte Jornal da Unicamp 27/05/2013 às 10h

Tese mostra que pessoa com deficiência pode fazer kung fu


Estudo de professor de wushu prega adaptação das atividades e métodos de ensino.

Além de atleta, professor de wushu, supervisor técnico e ex-diretor da Confederação Brasileira da modalidade, o profissional de educação física Marcelo Moreira Antunes é um dedicado estudioso das artes marciais. Lê tudo o que encontra a respeito. Em sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Educação Física (FEF), não foi diferente. Após fazer uma imersão no tema, conseguiu comprovar concretamente que a pessoa com deficiência pode e deve praticar a arte marcial. Mas essa prática estaria condicionada a aspectos como a adaptação das atividades e métodos de ensino, a adequada formação de professores para esse fim e a superação do handicap, ou seja, dos impedimentos sociais.

Marcelo decidiu elaborar uma proposta inédita – “Artes marciais chinesas para pessoas com deficiência: dilemas, contextos e possibilidades” –, que exibe alternativas à prática desse esporte por pessoas com deficiência, documento que deve ser publicado como livro, dirigido aos amantes do wushu – a arte marcial chinesa que no Brasil é conhecida popularmente como kung fu. Na China, onde o esporte nasceu, esse designativo significa qualquer tarefa desempenhada com perfeição, não só a modalidade esportiva.

A sua expectativa é de que os professores de artes marciais chinesas usem a proposta como ferramenta para direcionar o treinamento e a prática por pessoas com deficiência, e que igualmente sirva de referência a novos estudos em artes marciais como o karatê, o taekwondo e o judô, etc., que ainda não possuem trabalhos acadêmicos nessa área.

A proposta de Marcelo abrange a atividade motora adaptada, o esporte adaptado, as diferentes deficiências do ponto de vista teórico e suas características, e os fundamentos histórico-culturais das artes marciais chinesas. E mostra a relação de diferentes conhecimentos para preparar um profissional para trabalhar com pessoas com deficiência. Lamentavelmente os estudos que vinculam arte marcial e deficiência são raros no mundo. “Por isso esse campo fértil me seduziu para um investimento acadêmico nessa direção”, constata.

Segundo ele, o que se nota hoje na mídia é uma divulgação majoritária do MMA (Artes Marciais Mistas) e, a despeito de o kung fu não figurar muito nos noticiários, é uma das modalidades esportivas que está pleiteando uma vaga nas Olimpíadas de 2020, que será decidida este ano em Buenos Aires, Argentina.

ATUAÇÃO

A intenção no estudo foi fornecer subsídios aos professores que trabalham nessa modalidade para receberem mais interessados em suas academias e aumentar a visibilidade do esporte. Ao criar uma ferramenta para esse propósito, Marcelo percebeu que um manual poderia restringir essa abordagem. Por isso sugeriu propostas para possíveis práticas, pelo fato dos contextos e das deficiências serem muito diferentes. Estabeleceu um modelo de primeira reflexão, por entender que é real a prática das artes marciais por diversas pessoas com deficiências.

As modalidades mais indicadas para os deficientes visuais dentro do wushu, por exemplo, se estendem também a pessoas com deficiência motora e intelectual. “Fazemos uma classificação cruzando o nível de deficiência com certa modalidade do wushu”, relata o doutorando. Foi feito um levantamento do que havia no mercado, cruzando essas informações com a literatura do esporte adaptado, concebido para ser adotado por pessoas com deficiência.

O direito a esse acesso está garantido por lei, embora cada modalidade tenha suas regras, que operam junto a grupos de pessoas com deficiência, federações e confederações. As categorias de deficiência contempladas pela pesquisa foram visual, auditiva, intelectual e físico-motora. No caso do deficiente visual, as modalidades mais recomendadas incluiriam as práticas de rotina ou coreografias de ataque-defesa (taolu) e o shuaijiao (uma luta que se dá com seus componentes agarrados), mais as práticas respiratórias. Atualmente, já não é mais mito a pessoa com deficiência competir. O wushu, a partir do estudo, mostrou-se viável, ainda que limitado em função do conhecimento que os profissionais têm do mercado. Como se trata de um estudo pioneiro, à medida que for difundido, mais pessoas se apropriarão dele.

O pesquisador fez um inquérito do wushu no Brasil, dos atletas ligados a competições, para descobrir os locais em que é praticado e a quantidade de participantes. A estimativa permitiu chegar a 21 mil federados (atletas de alto rendimento, professores e instrutores das modalidades). “Mas as federações não têm um controle preciso dos praticantes esporádicos ou que só usam a modalidade por lazer”, ressalva.

Marcelo também buscou identificar praticantes com deficiências no Brasil. Eram 49, de acordo com as federações. “A partir daí planejamos entrevistas com professores de wushu e fomos ver como eles entendiam essa prática, como visualizavam essa possibilidade e como deveria ser conduzida.” Mediante inferências sobre a prática do wushu por pessoas com deficiência, começou a ser desenhado um modelo de possibilidade, cruzando com a literatura e fazendo uma análise crítica sobre o que foi informado na entrevista e o que aparecia na literatura. Com isso, foram propostas classificações das práticas. A primeira etapa do estudo foi exploratória e a segunda propositiva.

Marcelo também esteve na China, berço do wushu. Teve o prazer de se encontrar com professores decanos da Universidade de Esporte de Beijing. Lá foram entrevistados um profissional de Educação Física da Universidade de Wuhan, dois mestres tradicionais respeitados na comunidade de Pequim e um chinês praticante de wushu que viveu no Brasil e mora na China há 15 anos.

Essas pessoas foram escolhidas para fornecer informações sobre a arte antiga do wushu. Os objetivos nos séculos 18 e 19 eram completamente distintos do que se vê hoje. O treino era uma visão militar. “Agora treinamos para saúde, entretenimento, competição e esporte”, relata o autor da tese.

Segundo o professor José Júlio Gavião de Almeida, orientador do estudo, hoje são várias as possibilidades do wushu, que vão do entretenimento à pedagogia. O esporte tem muitas condições favoráveis, contrariamente ao que se via no passado, quando era muito tecnicista – o “movimento do homem”. Hoje, se pensa “no homem em movimento”, algo maior.

“Marcelo conseguiu unir alguns elementos que, para a sociedade, eram tabus, que é o envolvimento da pessoa com deficiência em várias condições, uma relação com a sociedade mais potencializada e o pensamento da luta como instrumento social”, pondera Gavião.

As lutas, no momento, podem ser consideradas instrumentos pedagógicos, tais como outros esportes já muito bem-conhecidos no Brasil, como o futebol, e não só nas modalidades esportivas. Também no caso da dança e ginástica. Há espaço para manifestação do esporte por crianças, idosos, baixinhos, gordinhos, atletas com deficiência e de alto rendimento. O interesse de Marcelo pelo assunto resultou de sua atuação como professor de um aluno que tem síndrome de Down e do trabalho que fez com a Apae do Rio de Janeiro.

O trabalho, aborda o docente, é para a sociedade como um todo; é também para o fomento acadêmico, já que poucos estudos fazem essa discussão; e representa um grande avanço para que o wushu entre nessa perspectiva de avanço científico e acadêmico.

Gavião é responsável pela linha de pesquisa “O esporte e a educação física adaptada”, criada há mais de duas décadas na FEF. A Unicamp tem o único departamento com essa linha no âmbito da América Latina.


MODELO

Para o pesquisador, foi extremamente válido ter feito a trajetória que fez, porém, a julgar pelo começo, com 18 anos, não teria seguido esse caminho. A mãe era contra sua opção pela educação física. Desejava que o filho fosse médico e atleta de natação. “Quando escolhi o esporte, fui atrás de uma academia de kung fu. Foi uma decisão minha. E o que de melhor aprendi foi disciplina, perseverança e concentração.”

Embora “apaixonado” pelo wushu, Marcelo reconhece que falta continuidade e intensificação para a mudança de paradigma (eliminar o preconceito). Isso envolve compreender as artes marciais como uma possibilidade de prática dissociada daquela concepção militar.

Para formar um atleta hoje, dependendo do nível, internacional por exemplo, ele tem que ter de seis a oito anos de treinamento e estar dentro de modelos de esporte de alto rendimento, como em qualquer outro esporte.

Outra questão, opina ele, é que falta aos professores de artes marciais uma busca por esse conhecimento mais acadêmico e reflexivo. Nos dias atuais, os praticantes de artes marciais recebem conhecimento dentro de suas academias. E esse conhecimento é reproduzido há anos e assumido como verdade. O conhecimento das artes marciais ainda parte do senso comum, construído por culturas diferentes.

Então avançar em compreensão de que essa cultura se modifica e se apropria de outros elementos com os quais entra em contato é também uma necessidade. É preciso abandonar as artes marciais como instrumento de guerra e percebê-las como um instrumento de ensino, pedagógico e de equilíbrio social.

Publicação

Tese: “As artes marciais chinesas para pessoas com deficiência: contextos, dilemas e possibilidades”
Autor: Marcelo Moreira Antunes
Orientador: José Júlio Gavião de Almeida
Unidade: Faculdade de Educação Física (FEF)

Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 27/05/2013 ás 10h

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