Previsões sobre biocombustíveis celulósicos foram otimistas demais, diz agência dos EUA

Fonte Imprensa Unicamp 04/03/2013 às 14h

 

EIA afirma que dificuldades financeiras e no escalonamento da tecnologia impediram metas

A Agência de Informação sobre Energia (EIA, na sigla em inglês) divulgou na semana passada um comunicado em que afirma que as previsões para a produção de biocombustíveis celulósicos nos Estados Unidos foram demasiadamente otimistas, já que o volume de produção ficou abaixo do previsto. Em 2012, o país produziu 20 mil galões (76 mil litros) de combustíveis feitos a partir de biomassa de celulose, como etanol de segunda geração e os chamados combustíveis drop-in — renováveis que podem substituir diretamente os combustíveis fósseis.
 
"Apesar da expectativa de elevação significativa nos volumes de biocombustíveis celulósicos em relação aos níveis atuais, eles provavelmente ficarão bem abaixo das metas estimadas pela Lei de Independência e Segurança Energética de 2007. Essa lei estabeleceu uma meta de 500 milhões de galões [1,9 bilhão de litros] de biocombustíveis celulósicos em 2012 e um bilhão de galões [3,8 bilhões de litros] em 2013, aumentando para 16 bilhões de galões [60,6 bilhões de litros] em 2022", destacou a EIA.
 
Com os novos projetos de biorrefinarias em andamento atualmente, a agência ligada ao Departamento de Energia dos EUA prevê que, neste ano, a produção de biocombustíveis celulósicos ultrapasse a marca de cinco milhões de galões. Essa capacidade instalada poderá chegar a 250 milhões de galões (946 milhões de litros) em 2015, de acordo com a EIA.
 
Entre os motivos que impediram o alcance das metas norte-americanas, a EIA aponta os obstáculos para obtenção de financiamentos decorrentes da crise econômica, as dificuldades de escalonamento de tecnologias por parte de empresas inovadoras iniciantes e mudanças em estratégias corporativas em razão do aumento da oferta de gás natural a preços baixos. Alguns projetos chegaram mesmo a ser cancelados, como o da BP Biofuels na Flórida, sendo que outros foram adiados por causa desses impedimentos técnicos e financeiros.
 
"Olhando para frente, persistem desafios importantes para a produção de biocombustíveis celulósicos. Os custos totais de produção para muitos desses projetos pioneiros continuam superiores aos custos de combustíveis derivados de petróleo", informou a agência.
 
Biorrefinarias de grande escala
 
Chris Somerville, professor da Universidade da Califórnia – Berkeley e diretor do Instituto de Biociências de Energia (EBI, na sigla em inglês), considera que o problema de escalonamento da tecnologia é a principal barreira que impede a maturação comercial da produção de etanol celulósico. Segundo ele, há entre cinco e seis empreendimentos comerciais em andamento no mundo para produzir etanol de segunda geração em larga escala ainda neste ano, entre eles um no Brasil.
 
"O problema na questão dos biocombustíveis é que as refinarias só operam de maneira eficiente em escalas muito grandes", afirmou Somerville, durante o Workshop sobre Sustentabilidade de Biocombustíveis, realizado, em São Paulo, no dia 26 de fevereiro. "Dez mil barris por dia [37,9 mil litros], que é considerada uma escala muito pequena, seria uma escala grande para uma biorrefinaria", destacou, complementando que é necessário haver disponibilidade de biomassa suficiente no local da usina para se aproveitar toda a infraestrutura de engenharia necessária nesse tipo de tecnologia.
 
Somerville se mostrou otimista com a proposta da empresa GraalBio de construir uma usina de etanol celulósico no Brasil, que será em Alagoas e deverá ter capacidade de produção de 82 milhões de litros de etanol por ano. O diretor da EBI também apontou um dos motivos pelos quais a BP desistiu de investir em uma biorrefinaria nos EUA, após quase sete anos de planejamento. "De acordo com os custos de engenharia deles, o custo de conversão era inaceitável; a tecnologia não está pronta."
Custo elevado
 
Chris Somerville explicou, durante o evento realizado na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que o tratamento de resíduos representa, em média, 55% dos custos de produção de etanol de segunda geração, o que inviabiliza o processo. Segundo o pesquisador, a questão do alto custo das enzimas só ocorre pela falta de continuidade do processo industrial, que requer grandes escalas. Para Somerville, se as enzimas pudessem ser reutilizadas no processo, de maneira contínua, o custo de produção do etanol de segunda geração seria reduzido. Além do mais, ele defende mais pesquisas com outras culturas agrícolas que não competem com os alimentos, como as gramíneas miscanto e switchgrass(nativa da América do Norte).
 

"Estou convencido de que os biocombustíveis podem produzir significativos benefícios na questão das emissões de gases de efeito estufa. Nós não trabalhamos com milho [em seus laboratórios na Universidade da Califórnia e no EBI]. O milho é muito bem-sucedido para os produtores agrícolas dos Estados Unidos, mas em uma perspectiva de longo prazo, em algum ponto, esperamos poder substituir o milho por outras culturas ricas em celulose, que sejam igualmente lucrativas para os produtores e emitam menos gases de efeito estufa." Para Somerville, há suficientemente terra disponível para produção de biomassa para geração de biocombustíveis e o discurso público que alega o oposto não é realista.

Imprensa Unicamp
Fonte Imprensa Unicamp 04/03/2013 ás 14h

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