Pesquisa do ICB com fungos da Antártica pode abrir rotas para o desenvolvimento de terapias contra doenças negligenciadas

Fonte UFMG 21/08/2014 às 11h
O combate à dengue, à leishmaniose e à doença de Chagas pode ganhar importantes aliados nos próximos anos, graças ao trabalho coordenado pelo professor Luiz Henrique Rosa, do ICB, e pelo pesquisador Carlos Leomar Zani, do Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR/Fiocruz), no Proantar. Fungos encontrados na Antártica que apresentaram reação aos agentes causadores dessas doenças demonstram uma possibilidade de desenvolvimento de remédios para seu tratamento.

A viagem à Antártica, neste ano, é a sétima do professor Luiz Rosa, a primeira como coordenador do MycoAntar: diversidade e bioprospecção de fungos da Antártica. Durante a expedição, a equipe dará continuidade à coleta de amostras para o estudo de fungos do continente.

O processo começa com o isolamento dos fungos, seguido pela taxonomia, processo que consiste na identificação, caracterização e classificação desses micro-organismos que serão utilizados como fonte das substâncias com atividade biológica.

As origens do MycoAntar remontam a 2005, quando o professor foi convidado pela professora Vivian Pellizari, da USP, para formar grupo de microbiologia com o objetivo de estudar os micro-organismos da região antártica. Com a parceria, os fungos passaram a ser objeto de estudo do grupo de pesquisa em Biodiversidade e bioprospecção dos fungos do ICB.

A primeira viagem à Antártica foi em 2006. A equipe, formada pelo professor Luiz Rosa, por Cristina Nakayama, atualmente professora da Unifesp, e pela hoje doutora Lia Rocha, foi responsável pelo primeiro trabalho de coleta de amostras. “O início do processamento do material ocorreu ainda na Estação Antártica Comandante Ferraz. Trouxemos várias amostras para o Brasil e começamos a encontrar resultados muito interessantes”, conta Luiz Rosa.

Linhagens identificadas
Desde então, mais cinco mil linhagens foram obtidas. Com esses micro-organismos está sendo montada uma coleção temática de fungos da Antártica. Essas culturas vivas e congeladas foram incluídas em coleção mantida pelo ICB. “Muitos desses fungos são candidatos a espécies novas. Porém, ainda é necessário mais estudo e pesquisa”, afirma Luiz Rosa.

Por meio da identificação e cultivo dessas linhagens, tem sido possível verificar a capacidade de algumas substâncias produzidas pelos fungos de atuarem contra os agentes causadores da dengue, da leishmaniose, da doença de Chagas e contra células tumorais humanas.

“Após observar as atividades, cultivamos os fungos em larga escala, a fim de tentar isolar e purificar as substâncias bioativas, identificá-las e verificar seu potencial para a obtenção de novo fármaco ou de um pesticida”, detalha o professor do ICB.

Essa fase da pesquisa é realizada em parceria com o CPqRR/Fiocruz, responsável pelo desenvolvimento em plataformas de ensaios biológicos. “Produzimos o extrato do fungo na UFMG, e os pesquisadores do CPqRR realizam testes para verificar a atividade em relação a essas doenças. Quando há interação, o fungo passa a ser produzido em maior escala”, explica o professor.

Entre as linhagens identificadas, o professor destaca dois grupos: os fungos cosmopolitas, que podem ser encontrados em vários lugares do mundo, e os endêmicos, observados apenas na região pesquisada. Por serem capazes de sobreviver em um ambiente como a Antártica, esses fungos podem possuir vias metabólicas exclusivas e, por isso, produzir substâncias bioativas únicas.

Além disso, o balanço entre a abundância de espécies endêmicas e cosmopolitas pode representar um modelo para o estudo das mudanças climáticas na região. “A diminuição de espécies endêmicas e o avanço das cosmopolitas podem ocorrer em razão das mudanças climáticas, principalmente na Península Antártica, local extremamente sensível”, detalha Luiz Rosa.

Visibilidade
Para registrar e tornar públicas as atividades do MycoAntar, foi lançada neste ano a iniciativa de extensão MycoProjector: projetando a diversidade de fungos da Antártica, desenvolvida pelo Centro de Comunicação (Cedecom). Além de criar uma plataforma de interação por meio de um blog e a identidade visual para o projeto, uma equipe do Cedecom vai acompanhar, entre novembro e fevereiro, pesquisadores durante a coleta de amostras.

Com a iniciativa, a equipe avança no seu objetivo de “desenvolver um projeto de comunicação científica que vai além da divulgação”, afirma a coordenadora do MycoProjector, Juliana Botelho. Ela acrescenta que o projeto vem-se aproximando de laboratórios de ensino na área de comunicação. “Prova disso é a parceria firmada com a disciplina Laboratório de Comunicação, que será ministrada pelo professor Nísio Teixeira, do Departamento de Comunicação Social da UFMG”, conta. Os alunos serão orientados a produzir a paisagem sonora de alguns vídeos gerados pela equipe do MycoProjector.

“Ao mesmo tempo, entendemos que a prática da comunicação científica é um terreno aberto para experimentações, o que nos conecta com o estudo de tendências em blogagem científica no cenário internacional”, ressalta Juliana Botelho.

Projeto: MycoAntar: diversidade e bioprospecção de fungos da Antártica
Coordenação: Luiz Henrique Rosa, do ICB
Financiamento: CNPq/Proantar
Colaboração: Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz-MG), Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (Fiocruz-PE), Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz-RJ), Embrapa Meio Ambiente, Universidade Federal de Tocantins, Universidade Estadual do Paraná, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal de Viçosa, Universidade Federal Fluminense, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Universidade de São Paulo, Universidad Nacional del Comahue, Conecet/Inibioma (Argentina), VIB Department of Molecular Microbiology (Bélgica), United States Department of Agriculture-ARS (EUA), Center for Forest Mycology Research, USDA-US Forest Service (EUA), Haikou Experimental Station of Chinese Academy of Tropical Agricultural Sciences (China)
UFMG
Fonte UFMG 21/08/2014 ás 11h

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