Pequenos gestos, grandes ações

Fonte Jornal Unicamp 31/05/2012 às 21h

A trajetória de Cecília Parra da Silva, professora de creche que se dedica ao voluntariado.

Verônica (2), Maria Angélica (4), Ana Clara (6), Luís Miguel (8) e Vicente (10) aprendem na infância a partilhar o que têm, seja uma roupa, um brinquedo ou até mesmo um tempo. A doação de tempo também foi estimulada cedo na vida da mãe dessas crianças, Cecília Alejandra Rodríguez Parra da Silva, pedagoga formada pela Unicamp, professora do Centro de Convivência Infantil da mesma Universidade e voluntária na Associação dos Amigos da Criança (Amic).

Na infância, em São Paulo, quando o destino do passeio era um asilo que costumavam visitar, Cecília e os irmãos caprichavam no preparo de bolos e lanches, sob condução da mãe, Nancy Cecília Parra Morales Rodriguez, falecida em 9 de dezembro de 2011. “Minha mãe sempre trouxe essa experiência para nós. Ela dizia que não imaginávamos o bem que fazíamos doando nosso tempo àquelas senhoras abandonadas, que há anos esperavam seus filhos irem buscá-las”, relembra Cecília.

Em 1994, ao descarregar a mudança no bairro Village, em Barão Geraldo, Campinas, a família Rodriguez rapidamente atentou para a sede da Amic na rua em que passariam o resto da vida. Em poucos dias, todos faziam parte do grupo de voluntários da associação, que atende mais de 900 crianças na cidade de Campinas, no Village, no Parque Oziel e no Monte Cristo. Um presente para as adolescentes grávidas dos bairros Parque Oziel e Monte Cristo, que tiveram seus enxovais confeccionados pelas mãos voluntariosas de Nancy e de suas companheiras de artesanato. Secretária comercial, ela também proporcionou anos de alegria para as crianças de zero a 3 anos com seu “faz de conta”.

Cecília dedica à mãe o trabalho voluntário realizado atualmente na Amic. O tempo doado é para ela um presente quando encontra na sala de seus filhos, no Educandário da Amic, crianças atendidas por elas no berçário. “Faz parte de minha vida. Recordo do relacionamento deles com minha mãe. Isso tudo carrega uma história”, acentua. Na creche, ela também tem o papel de captar recursos. Nesse aspecto, consegue adesão de pessoas dos mais variados ambientes que frequenta, inclusive de amigos da Divisão de Educação Infantil e Complementar (DEdIC), onde Cecília trabalha desde 2004. Outra parte de seu tempo é doada ao atendimento telefônico, três horas por semana, para garantir auxílio em dificuldades emocionais enfrentadas por famílias atendidas pela instituição.

Quando desembarcou em Campinas, Cecília tinha 12 anos e começou, ao lado dos irmãos, a ajudar na preparação de cestas distribuídas pela Amic. A saca de 50 quilos de arroz era dividida em pacotes de 1 quilo por jovens do Village, que já sabiam da miséria das pessoas, como diz Cecília, embora fizessem o trabalho pela alegria de estarem juntos. É o que Cecília chama de adolescência produtiva. Morar num bairro afastado como o Village, onde o intervalo entre um ônibus e outro era longo, não permitiu levar uma adolescência movida a baladas. Mas quem se importa? “Éramos felizes ali, cantando juntos, fazendo coral, serenata na casa um do outro. E tínhamos esse comprometimento de ir ensacar alimentos depois da aula”, relembra com satisfação.

Nessas reuniões juvenis, conheceu Diego Luís da Silva, com quem se casou aos 19 anos. Quando se uniram, já compartilhavam dois sonhos importantes: construir uma família e continuar contribuindo para a construção de um mundo melhor. Juntos, transmitem para os cinco filhos as ações solidárias dentro e fora de casa. Todos participam da organização do dia. Quando o Natal se aproxima, Verônica, Ana Clara, Maria Angélica, Luís Miguel e Vicente já se movimentam à procura de brinquedos em condições de ser doados, pois sabem que muitas crianças com as quais convivem, na mesma rua, poderão não ganhar presentes. “Mostramos que, às vezes, aquela pessoa que está ao lado pode estar dormindo debaixo da ponte sem que saibamos”, alerta.

A realidade dos mais necessitados sempre traz exemplos de solidariedade, na opinião de Cecília. Certa vez, em um dos natais da Amic, durante a distribuição de brinquedos, uma criança entrou várias vezes na fila. Mas diante do alerta de um dos voluntários, a atendente disse para entregar os objetos. Ao final da festa, o menino foi visto levando os brinquedos para uma criança que estava com a perna quebrada. “Vejo que reclamamos, mas olha o coração dessas pessoas. Nossa sociedade tem muita gente boa. Temos de acreditar no trabalho de cada um. Se cada um se preocupasse em fazer seu melhor, o mundo seria diferente. Então por que vou falar da presidência, dos outros, se no meu dia eu mesma tenho de deitar com a cabeça em paz no travesseiro e dizer: ‘Estou feliz com o que eu fiz?’”

Para chegar ao curso de Pedagogia da Unicamp, Cecília também teve de doar parte de seu tempo à preparação para o vestibular. Aluna de escola pública nos ensinos fundamental e médio, estudou em casa e recorreu a amigos professores em caso de dúvida. Em 2004, tornou-se mais que pedagoga, educadora, professora, mas também aliada de algumas famílias, pois acredita que a tarefa de educar tem de ser compartilhada.

Apesar de sempre sonhar em estudar na Unicamp e querer ser professora, Cecília não esperava trabalhar com crianças de zero a 6 anos. Trabalhou em escolas da rede pública estadual de Campinas, porém, o encantamento com a educação infantil foi rápido. “A educação me encanta. É a faixa etária que dá devolutiva de carinho muito boa. Eles são muito afetivos”. E, para ela, afetividade é um aspecto a ser trabalhado na relação entre professores e alunos. “Gosto muito de escola, da descoberta da escrita, dos cálculos, mas me encontrei na educação infantil por ser a base da formação do caráter. Encanta-me muito trabalhar com a moral e o diálogo com a família. Acho que é a maneira de a gente contribuir com o mundo”, reflete.

Para Cecília, os pais estão perdidos na missão de direcionar seus filhos, e a DEdiC permite que a escola se aproxime da família e oriente sobre o comportamento da criança. Na Unicamp, a autorização das chefias para que os pais atendam ao chamado da escola é muito importante, mas isso não ocorre em outras empresas e pode deixar marcas no adulto que a criança se tornará, na opinião de Cecília.

O reencontro com ex-alunos é sempre afetuoso. E quando observa um deles fazendo algo errado, a mestra logo pensa que pode ter falhado com a criança. “Onde foi que eu errei?, me pergunto. Eles fizeram parte de minha história. É uma troca. A gente não pode vir aqui e sair do mesmo jeito que entrou, e eles não podem passar por nós como se tivessem passado por um livro em branco”, reflete.

Para Cecília, é no dia a dia que o educador experimenta, de fato, as relações escolares. “Independentemente da história que a criança carregue, sei que um pouco mais de amor vai fazer a diferença. E o amor é bom para qualquer um, não é porque tem bastante amor em casa que não vou dar na escola. Antes pecar pelo excesso que pela falta. Procuro ter olhar sobre cada criança. Refletir sobre o contexto em que ela está. Eu tenho de ser um diferencial na vida de meu aluno”, acrescenta. Para ela, a valorização da prática (experiência diária) no currículo de graduação ajudaria o educador a chegar mais preparado à escola.

“Para mim, seria impossível trabalhar com papéis. Porque os papéis não beijam, não me dedicam desenhos nem cartinhas. A criança é o retorno. Podemos chegar aqui pensando numa série de problemas, mas eles nos envolvem”, responde sobre a escolha certa. Ela lembra que no final do ano, enquanto preparava a festa de encerramento com as crianças, a mãe estava no leito de morte, e a direção a aconselhou a se afastar, mas Cecília disse que iria até o fim pelo que aprendeu com Nancy. “Minha mãe nunca quis que parássemos para lamentar. E ela não ficaria feliz comigo se eu parasse para ficar triste. Ela dizia que a cada manhã temos de deixar as dificuldades de lado e nos entregar para aquele dia que está amanhecendo.”

Tudo o que acontece hoje em sua vida tem as mãos de Nancy, segundo Cecília. No Dia das Mães de 2011, ela teve oportunidade de dizer: “Mãe, você foi Deus para mim”. Hoje, ela pode se considerar uma jovem sonhadora, que conseguiu realizar muitos dos sonhos guardados na infância: “Sonhava com uma casa cheia de filhos, todos reunidos na mesa tomando café da manhã. Sonhava desde o primeiro dia em que avistei a Unicamp em estudar um dia aqui. Sonhava, brincando com minhas bonecas ou com colegas do condomínio, em ser professora.”

Agora, ela sonha em ver seus filhos trilhando bons caminhos e fazendo o bem. Quer ser cada dia alguém melhor. “Ser um pouquinho daquela que foi tudo para mim, alguém que foi um exemplo vivo, minha mãe.” Enquanto muitas pessoas buscam seus ídolos entre rankings, best sellers e premiações internacionais, Cecília elege alguém que doou grande parte do tempo à felicidade de outrem: “Costumamos admirar grandes ícones de amor e bondade, mas minha mãe me mostrou a importância dos pequenos gestos, das atitudes de cada dia, honrando seus compromissos, colocando o trabalho, os outros acima de si e de suas dificuldades, silenciando tantas vezes para não ferir. Vivenciei a importância de um bom exemplo em minha vida e desejo sê-lo aos que passarem por mim”.

Jornal Unicamp
Fonte Jornal Unicamp 31/05/2012 ás 21h

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