Para Marina Silva, governo impõe retrocesso ambiental

Fonte Imprensa Unicamp 05/04/2013 às 21h

Para Marina Silva, governo impõe retrocesso ambiental

O governo da presidente Dilma Rousseff vem subtraindo as conquistas ambientais obtidas pela sociedade ao longo dos governos anteriores. Um dos retrocessos mais visíveis foi a reformulação do Código Florestal, que foi desfigurado para anistiar os desmatadores. A afirmação foi feita na manhã desta sexta-feira (5) pela ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que esteve na Unicamp para ministrar a palestra intitulada “Os desafios do desenvolvimento sustentável”, a convite do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam). Antes de falar a um público composto por estudantes, professores e funcionários da Universidade, que lotaram o auditório da Diretoria Geral da Administração (DGA), Marina deu uma breve entrevista ao Portal da Unicamp.

Que conceito de desenvolvimento sustentável a senhora defende?A sustentabilidade não é apenas um adjetivo. É uma base material que precisa ser criada. Há também todo um sistema de valores que precisa ser transformado. A sustentabilidade, para mim, não é uma maneira de fazer. É uma maneira de ser, uma visão de mundo, um ideal de vida. Isso deve se traduzir naquilo que são os nossos projetos identificatórios. É preciso entender a sustentabilidade em várias dimensões: a econômica, a ambiental, a social e a cultural. É preciso que haja também a dimensão da sustentabilidade cultural, pois um modelo que elimina a diversidade não é sustentável. Nós temos uma grande riqueza cultural. Somos um país que conta com 220 povos que falam 180 línguas. Então, a preservação dessa diversidade faz parte da sustentabilidade. Obviamente, essas questões também precisam ser exercidas do ponto de vista ambiental. Precisamos utilizar com sabedoria os recursos disponíveis, para que as gerações futuras também possam ser beneficiadas por uma base natural que possibilite o desenvolvimento.

Quais os desafios mais importantes a serem superados para que o desenvolvimento sustentável seja alcançado?O desafio mais importante a ser enfrentado é a mudança do próprio modelo. O modelo que nós temos hoje está estagnado. Está estagnado do ponto de vista econômico, social e ambiental. E essa estagnação é agravada por dois problemas que estão num plano mais intangível, que são a crise de valores e a crise política. Do ponto de vista político, há um forte questionamento no mundo todo sobre a qualidade da representação política e do alcance das instituições que temos hoje para atender à demanda de participação de 7 bilhões de seres humanos. Obviamente, há também um questionamento sobre a quantidade dessa representação. Poucos são os que estão incluídos no processo. A maioria virou expectadora da política. No Brasil, essa estagnação é muito forte, pois os partidos têm o monopólio da política. Então, o grande desafio está em mudar esse modelo estagnado e estabelecer outro que possa proporcionar mais qualidade de vida para as pessoas e um fazer econômico que não trate a ecologia como uma externalidade.

Como a senhora avalia as políticas públicas na área ambiental?Infelizmente, estamos vivendo um grande retrocesso. Em todos os governos - alguns mais e outros menos – foram obtidas conquistas. E essas conquistas eram cumulativas. Em dois anos, em vez de acrescentar, o atual governo decidiu subtrair as conquistas alcançadas nos governos anteriores. Por exemplo: nós tínhamos um Código Florestal que protegia as florestas. Essa legislação foi completamente desfigurada em razão das medidas tomadas para anistiar os desmatadores. Além disso, tivemos uma medida completamente esdrúxula, que extraiu a competência do Ibama para fiscalizar os desmatamentos. Essa competência foi colocada nas mãos dos órgãos estaduais, que não têm estrutura viável para exercer essa função e ainda são suscetíveis a pressões locais. Então, estamos vivendo um momento difícil nessa agenda. A presidente ainda tem dois anos para reverter essa situação. Eu espero sinceramente que seja feita uma avaliação mais conscienciosa dessas questões. Em pleno século 21, com a grave crise ambiental que o mundo está vivendo, um país como o Brasil deveria estar na vanguarda desse processo. O país deveria estar quebrando paradigmas e integrando o esforço para demonstrar que é perfeitamente possível conciliar economia com ecologia. O que se está pedindo não é que se faça uma ruptura abrupta. O que se quer é que tenhamos políticas continuadas voltadas ao desenvolvimento sustentável. É um absurdo que o Brasil tenha um plano decenal de energia, mas não haja nele uma vírgula sequer sobre energia solar, justamente num país que tem a maior zona de insolação do planeta. A Alemanha, que quase não tem sol, tem 20% da sua matriz energética vinda da energia solar.

Frases

“As mudanças climáticas são o Armagedon da crise ambiental”

“Temos uma crise política, que se reflete na qualidade da representação. Os representantes acham que substituem os representados”

“Na base das crises política, social e ambiental está uma crise de valores. É esta crise de valores que faz com a economia seja separada da ecologia”

“Sustentabilidade, para mim, não é apenas uma maneira de fazer. É uma maneira de ser, um ideal de vida”

“Hoje, com a internet, a gente vive o ativismo autoral. É diferente do velho ativismo, que tinha sempre uma organização ou um líder carismático atrás ou na frente”

Imprensa Unicamp
Fonte Imprensa Unicamp 05/04/2013 ás 21h

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