Os movimentos sociais não precisam de intérpretes

Fonte Agência Brasil 21/05/2012 às 9h
No último dia 21 de abril, Dia de Tiradentes e aniversário da cidade Brasília, aconteceu a terceira edição da Marcha contra a Corrupção em Brasília, São Paulo, no Rio Janeiro e em outras cidades do país. O número de manifestantes nas três capitais onde a Agência Brasil fez a cobertura do evento foi menor do que nas edições anteriores. Em São Paulo, 800 pessoas participaram do protesto, de acordo com a Polícia Militar (PM); 3 mil, segundo os organizadores. Em Brasília, cerca de 1,5 mil, na estimativa da PM, mesmo com o reforço de parte do público que estava presente para as comemorações do aniversário da cidade. No Rio, a PM não divulgou o número.

Se esses números e a tendência declinante no comparecimento não chegam a impressionar, as reivindicações feitas pelos manifestantes tampouco trouxeram novidades. Além do fio condutor do combate à corrupção, a única bandeira levantada em todas as três edições da marcha foi o fim do voto secreto no Congresso. Os demais temas especificados nas reportagens da ABr eram de caráter mais pontual, conforme a edição e o local: na primeira edição, punição para os políticos corruptos (Brasília); na segunda, a defesa da constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa e a manutenção das atribuições do Conselho Nacional da Justiça (Brasília); na terceira, a tipificação da corrupção como crime hediondo (Rio), rapidez no julgamento do mensalão (Brasília e São Paulo) e o fim do foro privilegiado para os parlamentares (São Paulo). Assim, as perspectivas de sucesso da campanha não parecem muito promissoras para um movimento que ambiciona dar continuidade à iniciativa popular que angariou 1,3 milhão de assinaturas e levou à aprovação da Lei da Ficha Limpa em 2010.

Independentemente dos números e das bandeiras, a cobertura dessas marchas coaduna com a missão de uma agência pública de notícias? Para a ouvidoria a resposta só pode ser afirmativa, entre outras razões, porque a pauta vem das ruas, que foi o título e o tema da Coluna da Ouvidoria sobre o mesmo assunto em 28 de novembro de 20111. Além disso, a cobertura dessas formas de participação pública tem o potencial de contribuir ao fortalecimento dos valores da cidadania que são os objetivos primordiais da mídia pública. Coerente com essa finalidade e com as origens do movimento, a cobertura feita pela ABr voltou seu enfoque mais para os comentários dos participantes e dos organizadores do que para os números e as bandeiras e, em relação às fontes entrevistadas nas 15 matérias que a ABr publicou, 74% das fontes (25 de um total de 34) são organizadores ou participantes das marchas nas três capitais.

Entretanto, há leitores que têm uma posição contrária e escrevem à ouvidoria desde a primeira Marcha contra a Corrupção. Segundo eles, a ABr erra ao dar atenção a tais eventos, porque as marchas não são as expressões populares que podem aparecer. Em deferência ao desejo de anonimato desses leitores, faremos apenas um resumo dos argumentos que eles apresentam. Para eles, as marchas basicamente não passam de manobras para atacar e enfraquecer o governo, comparáveis às passeatas realizadas contra o governo do presidente João Goulart antes do golpe militar de 1964. Por mais que os organizadores das marchas neguem quaisquer afiliações com partidos políticos e insistam que as redes sociais foram os únicos meios de comunicação utilizados na organização das manifestações, o que importa para esses leitores é a alegada atuação disfarçada de setores da oposição e sobretudo da grande imprensa, esta às vezes taxada de PIG (Partido da Imprensa Golpista). A participação da Agência Brasil na cobertura das marchas significa ipso facto que a ABr faz parte da mesma laia. No caso da primeira edição da marcha, quando a novidade do uso das redes sociais chamou a atenção e motivou a publicação de artigos nos dias que antecederam o evento, a atuação da ABr foi condenada por constituir uma forma de conivência na convocação dos manifestantes.

Em termos da contribuição que a mídia pública pode dar ao fortalecimento dos valores da cidadania, a cobertura das marchas feita pela ABr merece ser vista em um contexto mais amplo do que aquele privilegiado nas interpretações da militância. A insatisfação com a corrupção é real. Não é restrita às classes abastadas, nem tampouco uma fachada para esconder interesses escusos. E, ao contrário da opinião de certos leitores, o alvo dos protestos não é o governo de A ou B, mas o funcionamento do sistema de governo como um todo. No entanto, o alvo é difícil de mirar, porque a corrupção está presente em muitos lugares e a concentração se perde facilmente diante a sucessão de escândalos que viram manchetes nos jornais. A multiformidade do alvo complica a canalização da frustração popular para estratégias de mobilização que visem a mudanças concretas.

Os analistas políticos que trabalham na área da cultura política identificam na reação de muitos cidadãos à crise dos sistemas democráticos uma nova configuração de atitudes, crenças e valores que eles chamam de “cidadania crítica”, levando em conta os altos níveis de desconfiança em relação ao funcionamento das instituições políticas sem deixar de detectar sinais positivos. No caso brasileiro, as pesquisas mostram que os valores humanos fundamentais que as pessoas associam à democracia não estão isolados da valorização dos meios que permitem sua concretização. Isso pode significar o surgimento de um padrão de cultura política mais complexo que “oferece uma base potencial de apoio político àqueles que desejem superar as distorções e deficiências institucionais atuais”. As opiniões a respeito da corrupção e do papel dos partidos políticos são exemplos disso. No caso dos partidos, apesar da avaliação negativa do seu desempenho, os cidadãos reconhecem que os partidos políticos são essenciais à democracia e, ao invés de querer eliminá-los, a maioria dos cidadãos parece estar dizendo que eles deveriam melhorar e desempenhar sua função representativa com mais eficácia. Do mesmo modo, a preocupação com a corrupção também mostra que existe uma demanda para que as instituições encarregadas da fiscalização dos atos praticados pelos políticos e pelos governos melhorem seu desempenho2.

Por isso, é importante que a ABr não limite a cobertura do fenômeno apenas às ocasiões das marchas. Há “fatos novos” que acontecem nos intervalos entre as manifestações. É importante também acompanhar os participantes como representantes da cidadania brasileira para saber como enfrentam as dificuldades que esse tipo de movimento apresenta. Uma matéria publicada pela ABr um dia depois da primeira edição da marcha identifica uma dessas dificuldades: “Para o cientista político Luciano Dias, o desafio dos organizadores da marcha será transformar a manifestação apartidária de insatisfação popular em algo capaz de promover transformações políticas reais. Para ele, embora seja uma iniciativa importante, a crítica genérica à corrupção é pouco eficaz. “A marcha foi uma iniciativa importante. A questão agora é se essa manifestação conseguirá se tornar um movimento político. E, para isso, é preciso ter um objetivo claro, como a aprovação de uma nova legislação anticorrupção”, destacou o especialista”.

Agência Brasil
Fonte Agência Brasil 21/05/2012 ás 9h

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