Os invisíveis querem ser vistos

Fonte Agência FAPESP 09/04/2013 às 8h

Os invisíveis querem ser vistos

 O resgate do pensamento dos antropólogos franceses Pierre e Hélène Clastres é uma das peças de resistência do livro O Profeta e o Principal, de Renato Sztutman, professor do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP).

Ponto de clivagem na reflexão antropológica, com profunda repercussão na filosofia, na sociologia e na prática política, a obra seminal do casal Clastres foi objeto de atenta releitura por parte de Sztutman em sua tese de doutorado, desenvolvida de 2001 a 2005, sob a orientação de Dominique Tilkin Gallois, com Bolsa da FAPESP. O livro, recentemente publicado também com apoio da FAPESP, é uma revisão dessa tese, que tem por objeto o material teórico relativo aos Tupi-Guarani.

“A reflexão acerca dos Guarani foi fundamental para que Pierre Clastres [1934-1977] formulasse sua concepção de sociedade contra o Estado”, afirmou Sztutman. “E o que estamos vendo hoje, 35 anos depois da morte prematura de Clastres [que faleceu aos 43 anos em um acidente automobilístico], é justamente um reflexo disso. Por se estruturarem como uma sociedade contra o Estado, os Guarani se tornaram indesejáveis para a sociedade e para o Estado hegemônicos”.

Sztutman aponta diversas características que fariam dos Guarani um desafio para o modelo de desenvolvimento dominante: “São povos que vivem em regiões que estão sendo ocupadas pelo agronegócio; que atravessam as fronteiras nacionais, transitando entre o Brasil, o Paraguai, a Argentina e o Uruguai; que têm uma relação com a terra completamente diferente do que se possa imaginar como sendo propriedade; que, apesar de terem líderes e saberem se organizar politicamente para a autodefesa, resistem à centralização política e à figura de um chefe central”.

Segundo o pesquisador, durante muito tempo a sociedade brasileira fez vistas grossas aos crimes cometidos contra os Guarani. “Eles estavam sendo dizimados e ninguém se importava. Hoje, uma parcela expressiva da sociedade chegou finalmente à compreensão de que é imprescindível dar direito de existência a populações que são contra o modelo hegemônico. Não podemos mais fazer vistas grossas. Temos que nos posicionar pelo direito de essas sociedades serem o que são: contra o Estado (e seu modelo desenvolvimentista), dentro de um Estado”, disse.

No Sudeste e Sul do Brasil, há Guarani em muitos locais. Na própria cidade de São Paulo, a não muitos quilômetros do marco central, na Praça da Sé, existem três aldeias guarani: duas em Parelheiros e outra próxima do Pico do Jaraguá. Mas, por ocuparem pouco espaço, estarem sempre em movimento e serem discretos no contato com a sociedade envolvente, esses Guarani se tornaram praticamente invisíveis.

“Em um texto de meados dos anos 1980, Eduardo Viveiros de Castro (antropólogo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro) se referiu a eles como povo imperceptível”, disse Sztutman. “Quando pensamos em índio, pensamos na Amazônia ou no passado. Mas os Guarani não estão na Amazônia nem no passado. Estão diante dos nossos olhos. E nós não os vemos.”

Conforme Sztutman, outro marco divisório, este no domínio teórico da antropologia, com repercussão na filosofia e nas ciências humanas em geral, foi estabelecido, décadas atrás, pelo livro A Sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres. Nele, o pesquisador francês interpretou a ausência de Estado nas sociedades indígenas não como uma deficiência (algo a que elas ainda não chegaram), mas como uma rejeição (algo a que elas se opõem, por meio de mecanismos eficazes).

A partir de Clastres, o esquema clássico, calcado na experiência dos povos da Europa, deixou de ser um modelo inelutável para a interpretação da trajetória de todos os povos do mundo. O Profeta e o Principal, de Sztutman, se insere em um grande movimento de recuperação e releitura da obra de Clastres.

“Principalmente nos anos 1980, os antropólogos se afastaram muito da perspectiva clastreana, pois buscavam uma antropologia mais empírica e Clastres era considerado excessivamente filosófico: alguém que trabalhava com os dados de maneira imprecisa e chegava a grandes conclusões com base em poucas evidências. De fato, na época em que ele escreveu, décadas de 1960 e 1970, havia poucos estudos etnográficos sobre os povos amazônicos, dentre eles os de língua tupi. Porém, nas décadas seguintes, estudos importantes foram realizados. E, principalmente com o trabalho de Viveiros de Castro, começou a haver uma reaproximação da etnologia com a filosofia, mas, então, já com a possibilidade de se discutir ideias filosóficas a partir de uma grande riqueza de dados empíricos. Aí, se abriu uma brecha para a releitura dos Clastres, Pierre e Hélène”, disse Sztutman.

Sztutman, que também é pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios e do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia, considera-se um herdeiro dessa nova tendência, reconhecendo, além da contribuição de Viveiros de Castro, as influências de Márcio Goldman e Tânia Stolze Lima, do Rio de Janeiro, e de Dominique Gallois e Beatriz Perrone-Moisés, de São Paulo, com quem tem trabalhado frequentemente e que prefaciou o seu livro.

“Realizei, em 1996, um trabalho de campo entre os Wajãpi, grupo de língua tupi que habita a região do rio Oiapoque, no extremo norte do Brasil, perto da fronteira com a Guiana Francesa. Escrevi sobre essa experiência em minha tese de mestrado. Foi uma permanência curta, mas que originou muitas inquietações que motivaram, depois, meu doutorado”, contou Sztutman.

“Embora os Guarani sejam, hoje, o povo indígena mais populoso da América do Sul, existem também muitos povos Tupi na Amazônia. O que suscitou meu interesse pelos Tupi antigos foram os Tupi amazônicos, e não os Guarani”, afirmou.

O xamã e o guerreiro

“Meu trabalho de pesquisa se baseia na continuidade das formas indígenas de organização políticas do passado até o presente. Tento identificar, como base dessa continuidade, a relação de duas figuras importantes: a do chefe ou ‘principal’, ligado à guerra, e a do xamã ou ‘profeta’, ligado ao mundo não humano. São duas figuras ao mesmo tempo opostas e complementares”, disse Sztutman.

“ É um pouco na alternância dessas duas formas de liderança que a vida social se constitui. Mas não há um dualismo total, porque você não encontra essas figuras puras. Todo chefe de guerra é um pouco xamã; todo xamã é um pouco guerreiro. São princípios em combinação. O profeta é um grande xamã, alguém que vai além do xamanismo estrito, voltado para a cura e a feitiçaria, e lhe dá um sentido político, liderando as grandes migrações rumo à ‘terra sem mal’”, explicou.

Sztutman reconhece que seu viés é mais o do pesquisador teórico-bibliográfico do que o do pesquisador de campo. Porém considera a pesquisa de campo uma passagem obrigatória para o antropólogo.

“Uma professora que tive dizia que é muito diferente ler uma etnografia quando se teve experiência de campo. A formação do antropólogo tem que passar pelo campo, mesmo que ele descubra que a sua vocação é mais ligada ao trabalho de comparação, de análise, de sistematização ou mesmo de história intelectual, como é o meu caso”, disse.

“Voltei a campo, depois que estive com os Wajãpi. E gostaria de voltar novamente. Mas acho que a melhor contribuição que posso dar é a de cotejar as etnografias, de confrontar as teorias com os dados, e, também, de fazer um pouco da história da etnologia indígena. Acho que a etnologia indígena pode dar uma contribuição muito grande para as ciências humanas em geral”, disse Sztutman.

 

Agência FAPESP
Fonte Agência FAPESP 09/04/2013 ás 8h

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