O humor na obra de Noel Rosa

Fonte Agência FAPESP 31/05/2012 às 17h

O humor na obra de Noel Rosa

 As letras de sambas emblemáticos de Noel Rosa (1910-1937), como Com que roupa?, Malandro medroso e Gago apaixonado, são carregadas de um tipo de humor e ironia fina que fizeram escola na música popular brasileira.

Enquanto em outros sambas clássicos e marchinhas de carnaval de compositores contemporâneos e parceiros de Noel Rosa, como Braguinha (1907-2006) e Lamartine Babo (1904-1963), as agruras da vida são tratadas em tom de deboche, nas canções do Noel Rosa, o “poeta de Vila Isabel”, a falta de trabalho e dinheiro ou as dores do amor despertam um riso que ao mesmo tempo é a expressão de uma dor. São músicas com uma carga de autoironia que sugere desprezo pelos valores dominantes na sociedade da época, com um resquício de amargura.

As marcas e o legado da obra de um dos maiores e mais importantes compositores da música brasileira são analisadas no livro Noel Rosa – o humor na canção, lançado no início de maio com apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

Resultado de um trabalho de doutorado realizado por Mayra Pinto na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), com Bolsa da FAPESP, o livro aborda como a obra de Noel Rosa é calcada em um tipo de autoironia que até então não havia nas canções populares.

“O eixo da obra de Noel é uma figura ambígua o tempo todo, que diz sem dizer, que brinca de dizer”, disse Mayra, autora da pesquisa e do livro à Agência FAPESP.

“Ele se apropriou da ginga do malandro, no sentido filosófico, e criou o personagem de um sambista frágil e vagabundo, sem forças, dinheiro e reconhecimento que, por outro lado, é capaz de criticar, colocar o dedo na ferida e dizer que não está interessado nos valores dominantes do trabalho, da moral e outros, da sociedade”, disse.

Em Com que roupa, seu primeiro samba gravado, por exemplo, o compositor se apresenta como um malandro que não tem dinheiro sequer para vestir uma roupa adequada para ir à roda de samba devido à crise financeira mundial de 1929.

Já em Filosofia, ele se queixa da incompreensão do mundo à respeito de sua condição de sambista e relata sua estratégia para lidar com essa dor em versos como: “Mas a filosofia/ Hoje me auxilia/ A viver indiferente assim/ Nesta prontidão sem fim/ Vou fingindo que sou rico/ Para ninguém zombar de mim”.

“Noel Rosa trabalha o tempo inteiro com a ambiguidade, que talvez seja a marca mais profunda de sua obra e que permite disfarçar a crítica, dizendo de uma forma humorada aquilo que em um discurso sério não poderia ser dito”, disse Mayra Pinto.

De acordo com a pesquisadora, o compositor fez o tipo de discurso crítico de suas músicas justamente pela via do humor e da ironia, diferentemente da década de 1960, quando surgiram as músicas de protesto. Ele se tornou pioneiro na utilização do recurso da ironia por conta de sua competência poética.

“Noel Rosa conseguiu construir estruturas poéticas carregadas de ironia porque dominava muito bem o discurso coloquial, que só a partir da geração dele entrou, de fato, como uma marca linguística de primeira grandeza na canção”, disse a autora do livro.

Ao lado dos modernistas

Segundo Mayra, as mesmas categorias discurssivas identificadas na canções principalmente do fim da década de 1920 e início da seguinte – como o discurso coloquial e as várias categorias do humor, entre as quais a ironia – também podem ser encontradas nas obras iniciais dos escritores modernistas brasileiros, como Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954) e Manuel Bandeira (1886-1968).

“Há um preconceito de achar que somente a cultura erudita é que pensa sobre o mundo e a cultura popular não. E a obra do Noel Rosa, que era um compositor culto, está aí para comprovar que a cultura popular, sobretudo a canção, também é um lugar reconhecido de reflexão”, comparou.

Em seu pós-doutorado, Mayra pretende comparar as obras Alguma poesia e O Brejo das almas de Carlos Drumond de Andrade (1902-1987) com algumas canções de Noel Rosa. “Eles fundaram um mesmo sujeito lírico na cultura brasileira”, disse.

Agência FAPESP
Fonte Agência FAPESP 31/05/2012 ás 17h

Compartilhe

O humor na obra de Noel Rosa