"Nós" e "outros" na Rússia xenofóbica

Fonte Jornal da Unicamp 10/04/2013 às 19h

Tese aborda recrudescimento do racismo contra os chechenos no contexto pós-socialista

O aumento do preconceito racial e da xenofobia na Rússia contemporânea: este é o tema da tese de doutorado de Cristina Antonioevna russa engajada no movimento pela autodeterminação da Chechênia. A autora defendeu a tese no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) em março, sob a orientação do professor Omar Ribeiro Thomaz, com a proposta de contribuir para o debate científico em torno do contexto pós-socialista, póstotalitarista e pós-colonialista.

Nascida em Moscou, filha de mãe russa e pai brasileiro, Cristina Dunaeva veio para o Brasil em 1999 e tem retornado periodicamente à terra natal. Conta que marcaram sua vida os relatos de Lida Iussúpova, advogada e escritora chechena que acabava de participar do Fórum Social Mundial de Porto Alegre em 2004. “Ela teve problemas com a passagem de volta e, a pedido de conhecidos comuns, ficou hospedada por três dias na minha casa em São Paulo. Foi a primeira pessoa chechena que conheci.”

A Chechênia, explica a autora da tese, fica no Cáucaso Setentrional, região conflituosa por reivindicar sua independência desde a colonização pelo império russo, no século XIX. Após o fim do império russo, chechenos e outros povos da região lutaram pela autodeterminação, desta vez contra a União Soviética. Dissolvida a URSS, Chechênia e Tatarstão foram as duas únicas unidades que se recusaram a assinar o acordo de integração à Federação Russa, em 1992. Boris Iéltsin ordenou então a tomada de Grozny, capital chechena, na virada de 1994 para 1995, com bombardeios aéreos a bairros residenciais e hospitais – a mídia misturava notícias da guerra com a programação festiva de fim de ano e a morte de 200 mil civis foi omitida. Esta guerra durou até 1996 e recomeçou em 1999, no período de renúncia de Iéltsin e eleição de Vladimir Putin, agora apresentada como uma operação contra terroristas.

Lida Iussúpova, ativista dos direitos humanos que viria a ser indicada ao Nobel da Paz (2006 e 2007) e laureada com o Prêmio Thorolf Rafto (2005), presenciou acontecimentos trágicos na Chechênia, como assassinatos e sequestros da população civil. “Ela deixou comigo relatórios produzidos pela Memorial, uma ONG russa que a partir da década de 1980 começou a tratar das novas migrações e da situação dos refugiados dos conflitos. Sugeriu que eu reproduzisse parte do material em português.”

Cristina Dunaeva confessa a revolta consigo mesma por não fazer ideia, quando moradora de Moscou, do enorme sofrimento humano na Chechênia. “Juntamente com um companheiro, comecei a organizar exposições de fotografias em São Paulo e outras cidades brasileiras, e também na Venezuela, Portugal e Espanha, além de contatar grupos na França e na Rússia. Paralelamente, ingressei no programa de doutorado em Ciências Sociais da Unicamp para pesquisar essa temática.”

De acordo com a historiadora, se a comunidade internacional aceitava a ocorrência de violações aos direitos humanos na Chechênia, incomodava-a o total silêncio sobre a questão quando viajava à Rússia. “Ninguém pensava nas guerras como sendo ações criminosas do governo e do exército que, pelo contrário, recebiam apoio, por que os chechenos eram percebidos como ameaçadores e terroristas. Na mesma época, em 2004 e 2008, intensificou-se nos grandes centros a violência contra migrantes e estudantes africanos, latino-americanos e asiáticos. Ficava cada vez mais evidente a atuação de muitos grupos de extrema direita, que perpetuavam essas práticas.”

“NÓS” E “OS OUTROS”

Cristina teve um coorientador na sua pesquisa de campo em Moscou, o professor Viktor Shnirelman, que escreve sobre racismo contemporâneo, grupos de extrema direita e construções históricas de identidades étnicas. “Na Rússia, a discriminação se dá pela diferença étnica. Durante a União Soviética, a Chechênia era a república com maior índice de desemprego e piores condições de educação e de saúde: trata-se de um grave problema social, mas que vai ser disfarçado como sendo de diferença étnica, até por que no socialismo entendia-se que as classes sociais não mais existiam.”

A autora intitula os dois capítulos seguintes à introdução como “Nós” e “Outros”. Os primeiros, compreendidos como os moradores de Moscou e os russos em geral, que detêm o poder na localidade e se denominam como grupo receptor dos migrantes recém-chegados das outras regiões do país (os outros). “As estatísticas não são confiáveis, pois os migrantes que trabalham legalmente são minoria. Moscou possui oficialmente 11 milhões de habitantes e a população ilegal é estimada entre 1 e 4 milhões, segundo fontes diferentes.”

A pesquisadora afirma que chechenos e caucasianos, os mais discriminados, não possuem peculiaridades físicas que denunciem sua etnia e todos, inclusive, falam o russo, como era regra na URSS. “Porém, persiste daquela época a obrigatoriedade de constar a nacionalidade no documento de identidade. E também existe até hoje um controle rígido do Estado sobre a mobilidade das pessoas: para trabalhar em outra cidade, é necessário obter o registro de permanência, com a presença em cartório do proprietário do imóvel onde a pessoa vai residir. Para um checheno, é uma enorme dificuldade conseguir um emprego e alugar uma casa.”

O estigma envolvendo os migrantes, como observa Cristina Dunaeva, aumentou bastante com os atos de terrorismo – tomadas de reféns, explosões de prédios e de estações do metrô – atribuídos inicialmente aos chechenos e, por conseguinte, aos caucasianos. A guerrilha chechena assumiu algumas ações e outras, não. “Potencialmente, são todos terroristas perigosos, registrando-se muitas prisões arbitrárias devido ao preconceito. Os migrantes ficam extremamente vulneráveis, por causa da dificuldade de garantir emprego, moradia, escola para os filhos e acesso à saúde.”

EXPOSIÇÃO

Como desdobramento da sua tese de doutorado, Cristina Dunaeva organizou a exposição “Entre as montanhas da Chechênia e as ruas de Moscou – registros de uma pesquisa de campo”, com imagens cedidas por fotógrafos que trabalharam nos campos de refugiados chechenos. “Procurei colocar um mínimo de texto para destacar as expressões dos refugiados, que permaneceram nessa condição extremamente precária por anos e anos seguidos. Sem ter como se manter (grande parte veio das áreas rurais), eles dependiam de ajuda humanitária, mas pelo menos não corriam tanto risco de vida.”


Esta página traz algumas fotos da mostra aberta durante todo o mês de março na Biblioteca Octavio Ianni, do IFCH. Uma delas, de autoria desconhecida e cedida por Lida Iussúpova, registra a destruição causada pelos bombardeios aéreos a Grozny, capital da Chechênia. Outra fotografia é de Said Magomiédov e oferece um panorama do campo de refugiados de Inguchétia (república vizinha da Chechênia) em 2002. O mesmo fotógrafo mostra refugiados da vila Kenkhi fugindo para o Daguestão (outra república vizinha), após bombardeios aéreos da Rússia em 2002. O piquete em São Petersburgo contra a guerra na Chechênia (2004) foi fotografado por Fernando Bomfim, professor da UFRN.

De acordo com Cristina Dunaeva, o governo russo declarou como terminada a guerra na Chechênia, mas atualmente ela se alastrou pelos territórios vizinhos. “Quase diariamente saem nos jornais da Rússia notícias sobre explosões de ferrovias, de estradas e de unidades militares ou policiais, e sobre confrontos entre o exército e os guerrilheiros não somente na Chechênia, mas em todo o Cáucaso Setentrional: na Inguchétia, no Daguestão, na Kabardino- Balkária e na Karatcháievo-Tcherkéssia. As unidades do exército continuam atuando na região e as práticas de sequestro de moradores supostamente envolvidos com a guerrilha, de ativistas de direitos humanos ou de jornalistas, por desconhecidos encapuzados, tornaram-se rotina.”

Publicações
Tese: “Preconceito racial e xenofobia na Rússia contemporânea: os mecanismos de categorização étnica e a dicotomia entre ‘nós’ e ‘outros’
Autora: Cristina Antonioevna Dunaeva
Orientador: Omar Ribeiro Thomaz
Coorientador: Viktor Shnirelman
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)

Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 10/04/2013 ás 19h

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