Não é o que parece, para além da lei da oferta e da procura

Fonte Jornal da Unicamp 23/05/2012 às 9h

Não é o que parece, para além da lei da oferta e da procura

Investigações de pesquisadores do Nepo e do Pagu acerca do aborto e do mercado transnacional do sexo revelam nuances que embaralham o senso comum e lançam luz sobre temas não raro tratados como tabus.

Estudos etnográficos recentes desenvolvidos por pesquisadores da Unicamp e de universidades internacionais e nacionais, mensuram o peso das articulações entre o sexo, o dinheiro e o afeto na mobilidade de pessoas. Os trabalhos exploram diferentes aspectos, ainda pouco analisados na academia, envolvendo estes deslocamentos e o chamado mercado do sexo. As investigações abarcam, sobretudo, a circulação entre os habitantes do Brasil, Espanha, Itália, Portugal e Estados Unidos.

Para a antropóloga da Unicamp Adriana Gracia Piscitelli, pesquisadora do Núcleo de Estudos do Gênero Pagu, os estudos “alargam” a noção de “geografias de poder marcadas pelo gênero”, estabelecida em 2001 pelas teóricas norte-americanas Sarah Mahler e Patrícia Pessar. Apesar de fundamental para os avanços nos estudos de gênero, esse conceito tende a restringir-se a relações entre homens e mulheres. São raras, segundo Piscitelli, as pesquisas que consideram as experiências de deslocamentos de pessoas “que embaralham as fronteiras entre masculinidade e feminilidade, como as das travestis”.

Um exemplo relevante para este entendimento é a relação que turistas gays estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos, estabelecem com garotos de programa do Rio de Janeiro que se autoidentificam como heterossexuais e que possuem namoradas ou esposas e, às vezes, filhos. “Estes turistas acabam, de alguma maneira, se integrando à família desses homens, tornando-se padrinhos dos seus filhos e enviando remessas de dinheiro para ajudar sua família. E esses homens que se consideram heterossexuais dizem que não se apaixonam por esses estrangeiros, contudo, ao longo dos anos, vão criando sentimentos de carinho e de gratidão pela ajuda recebida. Com travestis, as relações são ainda mais surpreendentes, como aquelas entre travestis brasileiras e seus maridos italianos”, revela.

A estudiosa do Pagu reuniu mais de uma dezena de pesquisas acerca do tema no livro Gênero, sexo, amor e dinheiro: mobilidade transnacionais envolvendo o Brasil, que acaba de ser lançado no âmbito do programa de doutorado em Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). A obra também é organizada pelos pesquisadores do Pagu José Miguel Nieto Olivar e Gláucia de Oliveira Assis, atualmente, professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

Adriana Piscitelli lidera na Unicamp linha de pesquisa sobre sexualidade que vem produzindo desfechos relevantes nos estudos nacionais e internacionais ao longo dos últimos 13 anos. Os resultados exigem, segundo ela, uma nova conceitualização sobre o termo “mercado do sexo”. A antropóloga defende, com base em resultados empíricos, que a expressão não pode se resumir ao conceito que supõe apenas a oferta e a demanda por sexo. Deste modo, ela questiona a ideia de que o turismo sexual esteja restrito somente à prostituição, no sentido da realização de ‘programas’. “Embora uma parcela da população envolvida em turismo sexual faça programas, existe também outra grande parcela que não faz. Atualmente se fala na indústria do sexo, pensada em uma sofisticada organização de empreendimentos, como hotéis, indústria turística e internet e que gera muitos lucros. Mas nas pesquisas empíricas que realizei por diversos anos, principalmente no Nordeste do Brasil, eu me encontrava com uma oferta de sexo comercial quase artesanal. Esta oferta, às vezes, remetia à prostituição, mas muitas vezes não. Havia também intercâmbios sexuais e econômicos que não envolviam dinheiro, mas outros tipos de benefícios e que operavam como um lugar de afeto. Ou seja, trocas nas quais quem oferece sexo é ajudado, se apega, se acarinha…”, analisa.

Outra conclusão importante dos trabalhos é a que questiona as visões que consideram todos esses deslocamentos como tráfico de mulheres para exploração sexual. A migração de brasileiras para atuarem no mercado do sexo nos Estados Unidos e países da Europa está ligada, principalmente, à busca de oportunidades, sejam elas econômicas ou sociais, afirma a antropóloga. “O termo ‘exploração’ remete a uma ideia de trabalho forçado. Mas isso nem sempre ocorre e não foram essas as percepções demonstradas pelas minhas entrevistadas na Espanha. O maior medo de muitas delas era da polícia migratória e não das redes de tráfico. Tendemos a pensar a prostituição e o mercado do sexo como se fossem fechados. Nos dois países onde pesquisei, na Itália e Espanha, eu percebi que as brasileiras eram uma presença significativa no mundo do trabalho sexual, mas elas também constituíam um dos principais contingentes de estrangeiras que casavam com italianos e espanhóis. Comecei, então, a notar que também existia uma forte imbricação entre os mercados do casamento e do sexo”, relata.

Vitimização

Seguindo na linha de Piscitelli, o pós-doutorando José Miguel Nieto Olivar explica que para muitas mulheres a prostituição constitui-se num campo de potencialização da autonomia. “A prostituição se configura em relações nas quais muitas mulheres podem exercer mais poder sobre suas vidas ou reduzir a violência. Eu tenho várias narrativas de mulheres que antes de entrarem na prostituição tinham relações conjugais fortemente marcadas pela violência. Ao saírem dessas relações e entrarem na prostituição por sua conta própria, elas relatam que têm menos violência e lidam melhor com isso porque não dependem de ninguem”, confirma. Olivar desenvolve seu pós-doutorado pesquisando o universo das prostitutas na região do Alto Solimões, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia.

“Trabalha-se com ideias muito fixas sobre prostituição e mercado do sexo, principalmente nos espaços políticos e da mídia. E, nestes sistemas de pensamento, o lugar da prostituta como vítima e/ou perversa é muito forte. Ou, então, é o empresário que é naturalmente perverso. O que estamos construindo e tentado colocar nas discussões no âmbito acadêmico e político são as vozes dessas pessoas. Nós tentamos fornecer dados para complexificar essas discussões, no sentido de reconhecer experiências de vidas que são válidas, mas que muitas vezes são apagadas”, crítica Olivar.

Por outro lado, Adriana Piscitelli admite as dimensões de violências que estão presentes na prosituição e no mercado do sexo. “Há dimensões de violência e de sofrimentos das pessoas, vinculadas, nas minhas pesquisas, ao pavor das brasileiras à polícia migratória e ao que elas viam como maus tratos para além da deportação. Há também o fantasma com a violência dos clientes, principalmente entre aquelas que faziam trabalhos sexuais em apartamento. Uma coisa é levar em conta essas dimensões de violência; outra, é considerar essas pessoas, a priori, como vítimas. Minhas entrevistadas não se consideram vítimas… Para muitas, o trabalho sexual e a migração faziam parte de estratégias, em seus projetos de vida, que, em algumas vezes, foram bem sucedidas e, em outras, não”, conclui.

Sexualidade tropical

A antropóloga também constatou que a imagem de uma brasilidade tropical, difundida no exterior como um atributo sexual, não justificava a demanda por sexo com as mulheres brasileiras na Espanha. Piscitelli afirma que elas “desapareciam” enquanto singularidade e nacionalidade nesse contexto.

Para justificar sua proposição, a pesquisadora cita a dinâmica de funcionamento das casas de sexo da Espanha, onde há uma lógica de selecionar as mulheres seguindo certa hierarquia. “No topo estavam as espanholas. Depois, as mulheres do leste Europeu, que eram tidas como mais cultas e mais eficientes. No meio havia uma faixa com as latino-americanas e, por último, as africanas negras. E as brasileiras eram englobadas no leque mais amplo de latino-americanas. E, lutando para se posicionar neste mercado e atrair clientes, o que as brasileiras acabavam afirmando não era nem a morenice, nem a sexualidade tropical, mas atributos relacionados à higiene e carinho. E os critérios dos clientes também não privilegiavam nenhuma nacionalidade”, demonstra.

Obra

O livro Gênero, sexo, amor e dinheiro: mobilidade transnacionais envolvendo Brasil, também publicado no formato e-book, envolve pesquisas em parcerias com estudiosos de universidades internacionais e nacionais. Entre as estrangeiras estão a Universidade de Northwestern (EUA), a Universidade de Milão (Itália) e o Instituto Universitário de Lisboa (Portugal). Das nacionais, participam a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Universidade do Vale do Rio Doce (Univale) e Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). A obra, de acordo com Piscitelli, foi concebida a partir do seminário Trânsitos Contemporâneos: turismo, migrações, gênero, sexo, afetos e dinheiro, realizado no final de 2010 na Unicamp.

¡ Serviço

Livro: Gênero, sexo, amor e dinheiro: mobilidade transnacionais envolvendo Brasil
Organizadores: Adriana Piscitelli, Glaucia de Oliveira Assis e José Miguel Nieto Olivar
Editado pelo Núcleo de Estudos de Gênero Pagu (IFCH)
E-book: http://www.pagu.unicamp.br/sites/www.ifch.unicamp.br.pagu/files/Livro.pdf

Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 23/05/2012 ás 9h

Compartilhe

Não é o que parece, para além da lei da oferta e da procura