Moradores de antiga colônia de hanseníase no Rio ainda lutam por reintegração

Fonte Agência Brasil 31/03/2013 às 20h

 

Rio de Janeiro – Fundada em 1929, a Colônia Curupaiti, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, abriga até hoje remanescentes da época em que pessoas com hanseníase eram obrigadas a viver isoladas da sociedade. Com a ida de parte dos índios da Aldeia Maracanã para o local, os problemas que ainda persistem no local voltam à tona.

As casas das cinco vilas foram cedidas pelo governo do estado em 2010 para os parentes e antigos pacientes. Ao todo, são 300 casas e cerca de 2 mil moradores, em um terreno de 77 mil metros quadrados. O local tem igrejas e templos de várias religiões, creche, campo de futebol, cine-teatro - que está abandonado - , bares, pracinhas, salão para baile, uma cadeia e o Instituto Estadual de Dermatologia Sanitária (Ieds). Além disso, sete pavilhões abrigam pacientes idosos - homens e mulheres separados - e um para os casados.

Uma das moradoras do Pavilhão Gustavo Capanema é Isabel Maria da Silva de Matos, de 80 anos, que vive em Curupaiti há 44 anos e diz não ter para onde ir. “Fiz o acompanhamento da doença por muitos anos, ainda tenho dormência, mas agora acabou, não faço mais tratamento. Só fico aqui porque não tenho casa lá fora, se tivesse, já estava no meio da sociedade”.

Para passar o tempo, as idosas fazem terapia e trabalhos manuais, como artesanato e pintura. Dona Isabel lembra que, na época em que foi internada, em 1970, foi separada da filha. “Nós fomos afastados do convívio social, eu tinha uma filha pequena. Quando eu vim para cá ela ficou na casa da minha irmã lá fora, na casa da minha família, ela sofreu muito, porque não tinha defesa. Quem nascia aqui ia para o educandário”.

A pensionista Elizabeth de Jesus Eggnstein passou pela mesma situação. Hoje, com 50 anos, ela nasceu na colônia e foi tirada dos pais com poucas horas de vida. “Meus pais se conheceram aqui e eu nasci aqui. Era tudo fechado, era uma cidade para eles, tinha cinema, hospital. A gente vinha escondido para ver os pais e apanhava muito, ficava de castigo quando voltava para o orfanato. Na escola, ensinavam o que era pai e mãe e a gente não entendia, por causa da separação”.

De acordo com ela, em 1986, com a mudança na legislação e o fim da internação compulsória, os filhos puderam voltar para a família e morar em Curupaiti. “Abriram as portas [em 1986] para a gente poder vir morar com a família. Meu pai faleceu quando eu ainda morava no internato e eu perdi minha mãe tem cinco anos. Hoje, ainda tem alguns doentes que moram aqui e os filhos que vieram para cá, os que não têm condições de ter casa lá fora”.

Segundo Elizabeth, o governo prometeu construir mais 40 casas dentro da colônia, para abrigar pessoas que moram nos subsolos, como é o caso dela. Outra promessa é implantar a rede de coleta de esgoto. Mas, até o momento, nada foi feito. A esperança é que, com a ida dos índios da Aldeia Maracanã, a situação melhore. “Isso aqui tava abandonado, com os índios a gente espera melhorar. A maioria dos moradores aceitou os índios, já que aqui tem muito espaço, é todo murado, muito grande. Os índios vão ter o espaço para montar as ocas deles e a gente vai interagir, eles vão ensinar a gente sobre as árvores, já que tem muita mata aqui”.

O coordenador nacional do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), Artur Custódio, também considera positiva a ida dos índios para a colônia. “Para nós, esse movimento que foi criado com a vinda dos indígenas é importante. Junta duas populações que foram marginalizadas, mas que pode trazer uma discussão de direitos humanos”.

A Empresa Estadual de Obras Públicas (Emop) foi procurada na semana passada para informar sobre as obras no local, mas não se pronunciou até a publicação da matéria.

A Secretaria Estadual de Saúde informou que a responsabilidade de manutenção das casas é de quem recebeu a titularidade. De acordo com o órgão, as obras de saneamento básico na área comunitária do hospital começaram em março, assim como os investimentos em infraestrutura e manutenção dos pavilhões, seguindo “uma prioridade por locais que possuam assistência aos deficientes e idosos”, segundo nota enviada pela assessoria de imprensa.

A responsabilidade pela acomodação dos índios é da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos.

Agência Brasil
Fonte Agência Brasil 31/03/2013 ás 20h

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