Masculinidade e branquitude na construção da República brasileira

Fonte Agência FAPESP 20/05/2013 às 9h

Masculinidade e branquitude na construção da República brasileira

 Masculinidade e branquitude resumiriam, em um binômio, o ideal da elite brasileira de fins do século 19. Um ideal que, virando as costas para o passado (colonial ou monárquico) e para o povo (negro ou mestiço), teria definido um modelo de disciplinamento sexual e embranquecimento para construir o Brasil do futuro.

No pensamento dessa elite, ao mesmo tempo conservadora e modernizadora, passado e povo estavam associados à natureza, aos instintos e ao atraso. O modelo que a inspirava era um retrato idealizado dos países mais desenvolvidos da Europa ou dos Estados Unidos. Tal é o fio condutor do livro O desejo da nação, de Richard Miskolci, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador do grupo de estudos “Corpo, Identidades e Subjetivações”, que reúne pesquisadores de várias universidades brasileiras.

Resultado de um pós-doutorado feito na Universidade de Michigan, em 2008, e de um Auxílio à Pesquisa, o livro, que também teve apoio da FAPESP para publicação, investiga os quereres e os temores dessa elite que promoveu a transição da monarquia à República e a modernização conservadora do país.

“Investiguei os ideais nacionais a contrapelo, por meio da análise dos fantasmas que assombravam nossas elites: desde o medo dos negros, que após a abolição passou a significar medo do povo, até as ansiedades sexuais e de gênero, que ameaçavam o projeto de construir a nação a partir de uma imagem idealizada da Europa”, disse Miskolci, atualmente professor visitante no Departamento de Estudos Feministas da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, Estados Unidos, à Agência FAPESP.

“Esses fantasmas estiveram na base da criação de um modelo bem brasileiro de modernidade: autoritário e discriminatório. Procurei demonstrar que, apesar de divergências secundárias, as elites modernizadoras convergiam na idealização de uma nação baseada em um paradigma de embranquecimento e heterossexualidade reprodutiva compulsória. A explicitação das supostas ameaças a esse ideal, dos fantasmas das elites, nos permite compreender melhor as transformações históricas, que uma perspectiva embasada apenas em processos racionais tende a ignorar ou minimizar”, disse.

Para demonstrar sua tese, Miskolci recolheu vários discursos políticos, científicos ou jornalísticos da época, como, por exemplo, a série de artigos publicados em A Província de São Paulo pelo médico Luís Pereira Barreto, nos quais esse pioneiro do positivismo no Brasil atemorizava os seus leitores com a imagem de uma perigosa “onda negra” que a abolição despejaria sobre a sociedade: “uma horda de homens semibárbaros, sem direção, sem um alvo social”.

Mas o pesquisador foi além da documentação explicitamente ideológica e procurou captar esse mesmo ideal, higienista e disciplinador, que perpassava tanto a esfera pública quanto a vida privada, apagando a fronteira entre ambas, por meio da análise de três romances exemplares do período: O Ateneu, de Raul Pompeia; Bom Crioulo, de Adolfo Caminha; e Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Em sua análise de Dom Casmurro, Miskolci subverte a leitura tradicional que viu no romance de Machado de Assis o relato amargo de um homem já idoso (Bentinho), atormentado pela memória da relação adúltera que, anos atrás, a esposa (Capitu) teria mantido com seu melhor amigo (Escobar). Do ponto de vista do pesquisador, o verdadeiro fio condutor do romance seria a atração entre Bentinho e Escobar, desempenhando Capitu o papel de mediadora (ao mesmo tempo vítima e cúmplice) desse desejo erótico secreto e inconfessável.

Como outros textos de Machado de Assis, Dom Casmurro faz a crítica, sempre velada e sutil, dessa ordem social hipócrita. “O fato de a atração entre Bentinho e Escobar provavelmente jamais ter-se consumado em termos sexuais, não impediu, ao contrário, contribuiu, para que se tornasse a força propulsora da vida do protagonista”, afirmou o pesquisador.

“Nos estratos sociais mais privilegiados da época, o casamento passou a ser uma demanda muito forte, que associava a respeitabilidade do homem à condição de marido e pai. Era uma obrigação que envolvia não apenas o interesse econômico, mas também outros interesses, como a necessidade de gerar herdeiros ou encobrir segredos. O casamento à brasileira tinha características próprias, como a manutenção da moral dupla que permitia aos homens o acesso a outras mulheres e, como demonstrei na minha análise, também a outros homens. Às mulheres cabia um papel duplamente subordinado, já que, além de obedecer ao marido, elas deviam também aceitar suas traições", disse Miskolci.

O que sobrou disso tudo no Brasil de hoje? Os debates contemporâneos, bastante acirrados, que têm como palco principal as mídias sociais, mostram que as questões étnicas e de orientação sexual ainda polarizam fortemente a sociedade brasileira. “As demandas atuais envolvendo direitos humanos demonstram que a cidadania ainda não foi universalizada em nosso país e há grupos políticos que lutam contra essa possibilidade”, comentou.

“As mulheres ainda não têm reconhecido o direito de decidirem se querem ou não ser mães; negros, indígenas e homossexuais ainda enfrentam dificuldades para fazer valer seus direitos”, prosseguiu o pesquisador. “De forma geral, a cidadania ainda é mais acessível e reconhecida para quem é homem, branco, rico e heterossexual.” Como essas características estão longe de definir uma maioria, o Brasil continuaria sendo, para citar as famosas palavras de Stephan Zweig, um “país do futuro”.

Agência FAPESP
Fonte Agência FAPESP 20/05/2013 ás 9h

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