Lixo de rua vira arte em Arapoangas, Itapuã, Lixão e Estrutural

Fonte BSB Comunicação 19/11/2009 às 0h
O lixo produzido nas cidades pode ser revelador. Representa o grau de consumo e o nível econômico da população, além da forma como o Estado e a sociedade lidam com a destinação dos resíduos e a preservação do meio ambiente. Nas mãos do grupo espanhol Basurama (basura, em espanhol, quer dizer lixo), no entanto, o significado do material vai mais além. Vira forma de expressão. Desde quarta-feira (16 de setembro) dois integrantes do grupo espanhol Basurama, que trabalha com resíduos e outros materiais encontrados nas ruas, estão ministrando oficinas que visam exercitar o imaginário das pessoas na intenção de que elas criem uma imagem urbana que possa representar as suas comunidades, e por meio da qual possam se identificar.

O trabalho faz parte das comemorações dos 50 anos de Brasília e visa confrontar a relação entre as comunidades situadas na periferia do Distrito Federal e o Plano Piloto, comparando os resultados obtidos entre si. Nos dias 21 e 22 de setembro, o Basurama orientou um grupo de jovens em Itapoã. Nos dias 23 e 24 de setembro (quarta e quinta-feira), das 10h (atividade)  às 18h (construção coletiva no espaço público) será a vez de Arapoanga.

No início de agosto, o grupo visitou Arapoanga, a Estrutural, Itapoã e o Lixão para conhecer as áreas, detectar situações, visitar pessoas e desenvolver a pesquisa. Agora voltou para realizar as ações que serão documentadas em vídeo pelo Instituto Cervantes e, no dia 26, mostradas em uma exposição no próprio Instituto. O evento é realizado pelo Instituto Cervantes, Casa da Cultura da América Latina da UnB (CAL) e a Central Única de Favelas (CUFA)/DF.

Na primeira visita ao aterro da Estrutural, o arquiteto Miguel Mister viu mais do que uma montanha de lixo. "Tínhamos uma visão da cidade ideal, modelo de progresso. Mas, como a maioria dos centros urbanos, aqui há uma série de contradições", comentou ele, diante do mau cheiro, das condições precárias de trabalho e sob os urubus que circulavam no lugar. O membro do Basurama, fundado em 2001 por nove estudantes de Arquitetura da Universidade Politécnica de Madrid, explica que vai levar essas impressões para o trabalho com jovens da Estrutural e dos bairros de Planaltina Arapoanga e Itapoã.

Miguel Mister e Ângela Leon destacam a importância de investimentos em coleta seletiva

"Queremos conhecer o olhar das pessoas que vivem aqui por meio das sensações que elas sentem diante da cidade", comentou. E para expressar esses sentimentos, lixo. Muito lixo. De garrafas pets a sofás velhos. "Vamos estimular a criação de objetos que representem Brasília e fazer exposições itinerantes em diversos pontos, inclusive no Plano Piloto", comentou Ângela Leon, colaboradora do Basurama.

O grupo, que já rodou o mundo com intervenções em espaços públicos está em Brasília para ministrar oficinas gratuitas, programadas para ocorrer entre os dias 18 e 25. "Estamos empolgados com o convite", completou León.

Lixo universal - Qual a cara do lixo de Brasília?

Em Brasília, o grupo espanhol Basurama faz pesquisa com o apoio do Instituto Cervantes, UnB e Cufa para a realização de oficinas artísticas em comunidades carentes do DF. O objetivo é representar os 50 anos da capital por meio do entulho.

O olhar treinado do Basurama indica um material diversificado. "Aqui tem de tudo, o que mostra as diversas facetas de uma cidade consumista", disse Miguel, que comparou o aterro ao das capitais da República Dominicana, Santo Domingo, e do Paraguai, Assunção. "Em Madrid vemos um lixo mais elitista, como mobília e objetos pessoais, já em Montevidéu (capital do Uruguai), pela condição econômica, o lixo é mais simples, como garrafas, latas e papelão", explicou.    

Mas não foi só o lixo de Brasília que chamou a atenção dos espanhóis. A imagem do descaso social no Lixão da Estrutural também marcou os membros do Basurama. "É preciso investir na coleta seletiva e diminuir a produção de lixo. Se o Estado e cada um de nós fizesse a sua parte em casa, essas pessoas não precisariam trabalhar dessa forma", observou ele, visivelmente espantado com a situação desumana do aterro próximo à Taguatinga. Hoje, existem cerca de 1,6 mil catadores na Estrutural, divididos em cinco cooperativas. 

Brasília 50 anos

A vinda do Basurama à Brasília faz parte das comemorações pelos 50 anos da cidade, celebrado em 21 de abril de 2010. "Mais do que a produção artística, o trabalho envolve a reflexão sobre a produção excessiva de lixo na capital e a importância do trabalho dos catadores na preservação do meio ambiente", comentou a diretora da Casa de Cultura da América Latina (CAL/UnB), Ana Queiroz, que destacou a importância do intercâmbio de conhecimento com outros países. O projeto é uma parceria entre a CAL, ligada ao Decanato de Extensão da UnB, o Instituto Cervantes e a Central Única de Favelas (Cufa-DF).
BSB Comunicação
Fonte BSB Comunicação 19/11/2009 ás 0h

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