Laboratório da Fafich pesquisa transtornos relacionados ao aprendizado da matemática

Fonte UFMG 09/08/2014 às 11h

Laboratório da Fafich pesquisa transtornos relacionados ao aprendizado da matemática

A incapacidade de lidar com números e entender conceitos matemáticos pode ser decisiva no desempenho escolar e até afetar o comportamento social do indivíduo, por gerar transtornos como ansiedade, depressão, baixa autoestima, revolta e agressividade.

“Em algumas crianças, isso é algo paralisante, levando-as inclusive a abandonar a escola”, informa o professor Vitor Haase, que coordena, no Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento da Fafich, uma série de pesquisas sobre transtornos relacionados à cognição numérica, como discalculia e ansiedade matemática.

Um dos estudos em andamento, realizado como dissertação de mestrado por Danielle Cristine Borges Piuzana Barbosa, é o desenvolvimento de metodologia, baseada em técnicas de terapia comportamental, para diminuir a ansiedade e aumentar a motivação de crianças e adolescentes no trato com a matemática.

“Neuroimagens mostram que a ansiedade atrapalha o desempenho, já que a pessoa ocupa a maior parte dos seus recursos cognitivos com os pensamentos ansiosos e quase nenhum com a atividade proposta”, explica a psicóloga.

Com base na metodologia, inédita no país, Danielle Barbosa pretende montar programa de intervenção capaz de auxiliar escolas no ensino da matemática. “Nossa esperança é de que evidências resultantes desse tipo de pesquisa possam ser úteis na formulação de políticas públicas, embora exista um hiato entre pesquisadores, formuladores e implementadores dessas políticas”, comenta Vitor Haase.

Sensação de fracasso
Transtorno relacionado à cognição numérica, a ansiedade matemática em geral aparece à medida que o estudante depara repetidamente com o insucesso na aprendizagem dessa matéria, à qual passa a ter aversão. Diante da necessidade de lidar com o tema, fica extremamente ansioso, apresenta reações orgânicas como suor frio, palpitações e diarreia, além de pensamentos negativos que o levam a alimentar, mesmo antecipadamente, uma sensação de fracasso. “Com isso, acaba evitando o assunto e, se evita, não aprende, porque a aprendizagem matemática exige muito exercício”, explica a psicóloga.

Em sua pesquisa, Danielle Barbosa tem acompanhado crianças e adolescentes com perfil ansioso, de 12 a 16 anos, faixa etária em que se forma a chamada metacognição, capacidade de ter pensamentos sobre os próprios pensamentos, o que lhes permite adquirir consciência das ideias negativas que atrapalham seu desempenho.

O trabalho usa técnica comportamental de aprendizagem sem erro, que adapta o currículo à capacidade de cada aluno. À medida que a criança vai obtendo sucesso e adquirindo autoconfiança, aumenta-se progressivamente o nível de complexidade das tarefas. Ao mesmo tempo, o estudo apoia-se em estratégia cognitiva que ensina a criança a reconhecer quando tem pensamentos automáticos negativos em relação à matemática. “Vamos ensinando-a a se questionar se aquilo tem ou não fundamento, se vai mais prejudicar do que beneficiar, procurando descobrir que tipo de ideia ela poderia desenvolver como alternativa”, descreve Danielle Barbosa.

Na avaliação inicial dos voluntários, é possível perceber se há ativação do sistema nervoso autonômo, além de pensamentos e sentimentos negativos em relação à matemática. Em geral, crianças com ansiedade matemática sabem a tabuada, resolvem problemas mais simples e começam a ter dificuldades em situações mais complexas, como os problemas que envolvem álgebra. “Não é que não tenham capacidade cognitiva, mas mobilizam sua memória de trabalho e seus recursos apenas para enfrentar a ansiedade. Assim, não conseguem lidar com outra coisa”, afirma a pesquisadora.

A intenção de Danielle Barbosa é propor metodologia que diminua a ansiedade e utilize técnicas para aumentar a motivação. A psicóloga leva inicialmente as crianças a identificarem os próprios pensamentos e, depois, a tentar modificá-los. “Às vezes essas ideias não são compatíveis com a realidade, então é preciso procurar outras, que ajudem a criança a evitar e diminuir os sintomas físicos e os pensamentos negativos”, comenta Danielle Barbosa, que, em dois semestres de pesquisa, atendeu dois grupos com perfis distintos.

O trabalho também inclui a autorregulação do comportamento, para que a criança crie uma rotina de estudo, uma vez que o exercício é fundamental para um bom desempenho em matemática. Questionários aplicados no início e no final de cada semestre medem os progressos, inclusive numa perspectiva qualitativa. “A dificuldade em si – discalculia, por exemplo – não melhorou, porque não trabalhamos esse aspecto, mas sim como a criança lida com o problema”, justifica.

A ansiedade matemática pode ou não estar associada a outro transtorno, a discalculia, que inclui dificuldade para entender o conceito de número, as operações e outros problemas básicos. “É comum encontrarmos adolescentes no ensino médio que ainda não conhecem os fatos matemáticos e por isso não têm como ir adiante”, relata o orientador. Segundo ele, como a matemática é organizada hierarquicamente e o nível de complexidade vai aumentando, “à medida que o tempo passa, esses alunos vão ficando cada vez mais defasados”.

Embora a discalculia possa ser uma das causas da ansiedade matemática, há pessoas que têm apenas esse segundo transtorno. “Na discalculia, geralmente a criança tem dificuldade desde o início. Na ansiedade matemática, os sintomas começam a aparecer mais tarde, à medida que o grau de dificuldade vai aumentando”, diferencia o professor, lembrando a importância do diagnóstico para que o tratamento comece cedo, a fim de evitar graves consequências para a vida prática, como a escolha de profissões que utilizem pouca ou nenhuma matemática e que tendem normalmente a oferecer salários menores. “A aritmética no mundo do trabalho é mais importante do que a leitura e a escrita”, enfatiza Vitor Haase.


Visões divergentes
Pesquisas como as desenvolvidas no Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento podem levar ao aperfeiçoamento de métodos para o ensino, acredita o professor Vitor Haase. Contudo, além da distância entre pesquisadores e formuladores de políticas públicas, ele aponta diferenças, inclusive epistemológicas, entre as visões defendidas pelas áreas de psicologia, neuropsicologia e pedagogia.

As divergências incluem questões práticas, como os diferentes métodos utilizados no processo de aprendizagem dos fatos matemáticos. “Acreditamos que memorizar os fatos aritméticos é extremamente importante, mas entre os pedagogos existe certa resistência, porque eles valorizam mais a compreensão”, informa o professor do Departamento de Psicologia.

Ele adverte que não adianta entender sem memorizar. “A matemática vai ficando cada vez mais complexa, e é necessário ter os fatos automatizados”, justifica. Ainda assim, o professor vislumbra a aproximação entre neurociência e educação, uma vez que o tema tem despertado grande interesse e já é representado por entidade específica, a International Mind, Brain and Education Society (Imbes).

Gênero
É falsa a crença, muito difundida, de que meninas têm menos habilidade em matemática, garante o pesquisador. “O desempenho das meninas é até melhor, porque, em geral, são mais estudiosas. Mas o número de indivíduos excepcionais na matemática é maior entre os homens”, explica. Enquanto as mulheres ficam mais em torno da média, no universo masculino há mais casos nos extremos – tanto entre os “muito ruins” quanto entre os “excelentes” em matemática.

O gênero, contudo, interfere quando se trata de ansiedade matemática, pois estudos mostram que esse transtorno afeta, sobretudo, as meninas, especialmente quando alunas de professores com ansiedade matemática. “É importante que eles se deem conta de que podem estar transmitindo atitudes negativas para os alunos, e muito mais para as meninas”, alerta o pesquisador.

Por se tratar de matéria de tal complexidade, muitos autores preconizam que o ensino de matemática seja especializado desde o jardim da infância. Segundo esses autores, o papel do professor que ministra várias disciplinas não deveria incluir a matemática. Trata-se de matéria que requer aulas especializadas, docentes sem ansiedade e com formação e habilidade específicas para transmitir conhecimentos.

Além de pesquisas como a de Danielle Barbosa, Vitor Haase coordena o ambulatório Número, que atende crianças em idade escolar e adolescentes com dificuldade de aprendizagem de matemática. A partir de rápida avaliação, que envolve teste de inteligência, escala de comportamento e teste de desempenho escolar, é possível diagnosticar eventuais problemas, como transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), autismo e dificuldade de aprendizagem matemática, casos que são encaminhados para uma avaliação mais aprofundada.
UFMG
Fonte UFMG 09/08/2014 ás 11h

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