Indústria automobilística: olhar para o governo ou mercado?

Fonte Evaldo Costa 02/05/2013 às 9h

 

Naturalmente, do ponto de vista das teorias de marketing a “regra do jogo” é manter os olhos abertos para as oportunidades de mercado. Neste sentido, nos ensina o guru Philip Kotler: marketing é um processo social e gerencial através do qual indivíduos e grupos obtêm o que necessitam e desejam por meio da criação e troca de produtos e valores com outras pessoas”.

No entanto, alguns fatores recomendam atenção especial ao título deste texto. O primeiro deles é a necessidade de controlar a poluição provocada pelo motor de combustão interna - MCI. Governos de todas as partes terão, inevitavelmente, que adotar medidas duras, e com enorme potencial para afetar a espinha dorsal da indústria automobilística global, alavancada pelos poluidores veículos movidos a combustível fóssil.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a Environmental Protection Agency – EPA, tem normas rigorosas para controlar as emissões dos veículos de passageiros e caminhões, que inclui informação ao consumidor, certificação de veículos, economia de combustível e, sobretudo, a redução da poluição provocada pelo MCI.

Como se não bastasse, as doenças causadas pela poluição do ar estão crescendo enormemente especialmente nas metrópoles, e os custos que o estado está tendo que arcar devido a esse problema, também. Pesquisa divulgada recentemente pela Organização Mundial de Saúde (OMS), revela que a poluição do ar provocou 3,2 milhões de mortes de pessoas no mundo em 2010. Foi um salto de 300% em relação ao ano 2000, quando os óbitos foram de 800 mil. Considere ainda, que há uma meta internacional para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 80 por cento até 2050.

Na Europa e na China os problemas são análogos e os esforços para saná-los seguem na mesma direção das políticas adotadas nos Estados Unidos. Além disso, há o problema dos congestionamentos que estão causando grande transtorno a população dos grandes centros urbanos do mundo. Aliás, o Produto Interno Bruto (PIB) global poderia contar com algum reforço, não fosse as longas horas improdutivas que o trabalhador, refém do caótico trânsito nas grandes cidades, contabiliza diariamente.

Um outro fator que poderá impactar diretamente a indústria automobilística é o fortalecimento do estado e prefeitura, comum ao primeiro mundo, mas em fase de expansão nos países em desenvolvimento. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Califórnia tem regras próprias e muito mais rigorosas, no que diz respeito a gestão da frota de veículos, do que os demais 49 estados norte-americanos.

É sabido que pela capacidade de gerar emprego e riqueza, a indústria automobilística sempre consegui apoio e concessões dos governos federais. Porém, do que adianta, por exemplo, receber incentivo para pagar menos imposto na produção, se os estados e municípios criarem regras que limitem ou onerem excessivamente a circulação dos carros em sua jurisdição?

Também, é preciso considerar que a China, maior mercado de autoveículos do mundo, adota sistema de governo semiaberto, exigindo novas formas de modelagem organizacional, onde as empresas multinacionais precisam aliar-se a parceiros chineses para explorar o mercado interno. E neste contexto, os chineses costumam dizer que ao fazer negócio na República Popular, deve-se "Olhar para o prefeito, não o mercado.”

A China tem problemas sérios com poluição atmosférica e o governo não tem muito tempo para agir, se quiser manter a população respirando. Neste sentido, além de leis restritivas, já foi dado os primeiros passos de apoio a mobilidade sustentável, com foco nos carros elétricos.

Ninguém duvida que a indústria automobilística é forte e organizada o suficiente para interpretar e se antecipar as tendências do setor. No entanto, terão que estar preparadas para:

1 - Superar novas e desafiadoras regras de governos para redução de gases poluentes;

2 – Investir em tecnologia limpa e carros econômicos;

3 – Lidar com estagnação ou redução de demanda - as vendas de autoveículos cresceram enormemente nas últimas décadas a ponto de alcançar quase 80 milhões de unidades em 2012. Havendo retração do mercado, haverá espaço para todos os fabricantes?

4 – Crescer com margem de lucro menores - o crescimento do volume tem sido graças ao mercado asiático, especialmente, a China onde as margens são divididas com sócios locais. Haverá rentabilidade suficiente para todos?

Finalmente, a indústria automobilística sabe muito bem que além dos inúmeros instrumentos de controle, os governos com as suas enormes frotas de veículos automotores, são clientes que não se pode prescindir. Portanto, tentar adiar ao máximo as ações que se alinham às tendência da mobilidade sustentável pode até ser possível, mas resisti-la não é inteligente, concebível, razoável e recomendável.

Ótima semana,

Evaldo Costa

Escritor, conferencista e Diretor do Instituto das Concessionárias do Brasil

Blog: verdesobrerodas.com.br

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Evaldo Costa
Fonte Evaldo Costa 02/05/2013 ás 9h

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