Farmacêuticas produzirão anticorpos monoclonais no Brasil

Fonte Agência FAPESP 14/05/2013 às 10h

Farmacêuticas produzirão anticorpos monoclonais no Brasil

Duas empresas brasileiras, a Recepta Biopharma e a Cristália, ingressaram no seleto segmento de indústrias de biotecnologia aplicada à saúde humana que desenvolvem anticorpos monoclonais imunomoduladores (mAbs, na sigla em inglês).

A Recepta Biopharma, que produz moléculas para o tratamento do câncer, estabeleceu uma parceria com a indústria suíça 4-Antibody AG e com o Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer para tanto. Seguindo o mesmo caminho, a Cristália produz dois mAbs que entram agora em fase pré-clínica (de testes em animais).

Esse tipo de anticorpo se liga às células de defesa T e, com isso, destrava o sistema imunológico humano para que ele passe a reconhecer e atacar as células tumorais.

Segundo um artigo publicado na edição de março da revista Nature Biotechnology, além da 4-Antibody AG, as outras únicas empresas que desenvolvem imunomoduladores no mundo são a GlaxoSmithKline (GSK), a Medley e a Bristol-Meyers Squibb.

“Estamos no início de nossa operação e pretendemos dar uma grande contribuição, em parceria com o Instituto Ludwig e a 4-Antibody AG, tanto em relação ao desenvolvimento de linhagens celulares para a produção de anticorpos como na condução de testes clínicos”, disse José Fernando Perez, presidente da Recepta e ex-diretor científico da FAPESP, durante a mesa-redonda sobre “Ciência, tecnologia e inovação na saúde”, na reunião magna da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro, em 8 de maio.

Coordenada por Eduardo Moacyr Krieger, vice-presidente da FAPESP, a mesa-redonda reuniu, além de Perez, Luiz Eugênio de Souza, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e Ogari Pacheco, presidente da Cristália.

A proposta do encontro foi debater o estágio atual da pesquisa e desenvolvimento nas indústrias farmacêuticas brasileiras e a necessidade de estimular os investimentos em ciência, tecnologia e inovação no setor de saúde por meio do estabelecimento de parcerias entre empresas e universidades e instituições de pesquisa.

“A produção científica brasileira em saúde é semelhante à internacional, e é a área que a mais demanda investimentos em pesquisa no país – a FAPESP, por exemplo, destina tradicionalmente entre 25% e 28% de seu orçamento para projetos de pesquisa em saúde. Por essas razões, é muito importante identificarmos quais os principais desafios enfrentados pelo setor para transformar o conhecimento gerado em inovação”, disse Krieger.

Na avaliação dos palestrantes, a entrada da Recepta Biopharma e da Cristália no segmento de produtos biotecnológicos ilustra a mudança de foco e a importância que a inovação passou a ter para as indústrias farmacêuticas brasileiras nos últimos anos com o advento da política de medicamentos genéricos.

Implementada no Brasil no início dos anos 2000, a política de medicamentos genéricos teve o mérito de possibilitar que algumas indústrias farmacêuticas brasileiras crescessem exponencialmente e pudessem competir com as multinacionais, além de estimular a formação de profissionais para atender ao aumento da demanda do setor, afirmaram os palestrantes.

Por outro lado, ela gerou um enorme déficit na balança comercial brasileira – porque praticamente toda a produção de medicamentos genéricos é feita com insumos importados –, além de uma briga entre as empresas para aumentar suas participações nesse mercado.

“Começamos a melhorar nos últimos anos algumas moléculas conhecidas com o objetivo de aumentar nossa participação de mercado e nos tornarmos mais competitivos em outros segmentos de mercado, além dos genéricos”, disse Pacheco, da Cristália.

Após seis anos de pesquisas, a empresa sintetizou o carbonato de iodenafila – princípio ativo do medicamento Helleva, lançado no final de 2007, e a quarta molécula usada hoje no mundo para o tratamento da disfunção erétil. As outras três são o citratro de sildenafila, utilizado no Viagra, da Pfizer; o tadalafila, princípio ativo do Ciallis, fabricado pela Eli Lilly; e o vardenafil, usado no Levitra, da Bayer.

A empresa sediada em Itapira, no interior de São Paulo, e detentora de 54 patentes também pretende inaugurar, até o fim deste ano, uma fábrica de princípios ativos oncológicos para produzir mAbs, outra de biofármacos e uma terceira de peptídeos. “Os dois mAbs que estamos desenvolvendo falam português com sotaque caipira”, brincou Pacheco.

A Cristália e a Recepta têm projetos de pesquisa apoiados pela FAPESP.

Conselho científico

De acordo com Pacheco e Perez, um dos principais desafios para ingressar no segmento de biotecnologia aplicada à saúde humana foi atrair investidores.

“Muitas pessoas não acreditam que uma empresa de biotecnologia brasileira na área de saúde de humana tem chance de dar certo, porque é algo com um enorme grau de incerteza que assusta muito os investidores; há poucas empresas de capital de risco no Brasil dispostas a assumir uma indefinição dessa natureza”, disse Perez.

Para fundar a Recepta, Perez conseguiu que o Instituto Ludwig se tornasse sócio da empresa, licenciasse a propriedade intelectual de quatro anticorpos monoclonais de seu portfólio que haviam demonstrado potencial para o desenvolvimento clínico e fizesse a transferência do conhecimento de desenvolvimento de mAbs.

A empresa também atraiu como investidores-anjos os empresários brasileiros Emílio Odebrecht e Jovelino Mineiro. No ano passado, o BNDES Par – braço de participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – se tornou sócio da empresa.

“Nossos investidores estão satisfeitos com o desempenho da empresa e estão dispostos a aumentar suas apostas nos imunomoduladores, que exigirão um grande aumento de capital na empresa”, afirmou Perez.

Outro desafio enfrentado para ingressar nessa seara, de acordo com Perez e Pacheco, foi estruturar suas equipes de pesquisa e desenvolvimento e encontrar no mercado profissionais que tivessem experiência com a realização de pesquisas e testes clínicos – feitos até então no Brasil por multinacionais.

Para isso, a Cristália formou um conselho científico, composto por profissionais que passaram a atuar como captadores de projetos e “olheiros” de pesquisadores nas universidades que pudessem ser recrutados pela empresa.

“A partir da formação desse conselho científico, começamos a formar pacientemente uma equipe capaz de desenvolver produtos que não estavam protegidos por meio de patentes no Brasil”, contou Pacheco.

Por sua vez, a Recepta também foi buscar na universidade oncologistas que soubessem desenvolver protocolos clínicos.

“A redação de um protocolo clínico de qualidade é uma ‘arte’ ainda pouco desenvolvida no Brasil. É muito difícil identificar um oncologista que tenha experiência e consiga definir um protocolo clínico de qualidade, o que é essencial para o desenvolvimento de um projeto de uma nova droga”, disse Perez.

A empresa encontrou e contratou um oncologista com essa experiência na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e atualmente faz testes clínicos em 18 hospitais, espalhados por nove Estados brasileiros.

De acordo com Perez, a Recepta foi a primeira indústria brasileira a fazer um teste clínico multicêntrico de fase 2 (em pacientes) de um anticorpo monoclonal para o tratamento de câncer registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e na Food and Drug Administration (FDA) – a agência regulatória de alimentos e fármacos dos Estados Unidos.

Os resultados preliminares positivos dos testes clínicos em pacientes com câncer de ovário e resistentes à quimioterapia fizeram com que a FDA concedesse, no início de 2012, a designação de orfan drug (droga órfã) para o anticorpo monoclonal desenvolvido pela empresa.

A designação não equivale à aprovação da droga, mas lhe concede alguns benefícios, como maior agilidade no processo de aprovação e necessidade de menos pacientes no teste clínico de fase 3. Também dá direito à empresa de ter sete anos de exclusividade sobre a eventual comercialização da droga e a possibilidade de obter financiamento da FDA, mesmo em se tratando de uma empresa sediada fora dos Estados Unidos.

“Produzimos também, pela primeira vez no Brasil, por meio de uma parceria com o Instituto Butantan, uma linhagem de um anticorpo monoclonal humanizado [que não provoca reação imunológica do organismo humano] que, infelizmente, ainda não conseguimos produzir no Brasil [por não ter uma fábrica no país]”, disse Perez. “Esperamos que essa situação mude rapidamente e já vemos sinais de que isso deve acontecer.”

Agência FAPESP
Fonte Agência FAPESP 14/05/2013 ás 10h

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