Exposição no Rio: Zuzu Angel usou arte para protestar contra ditadura

Fonte Agência Brasil 17/08/2014 às 11h
Os pássaros, as borboletas, as flores e os frutos das estampas de Zuzu Angel voltam ao Rio de Janeiro. Até o dia 2 novembro estão expostos no Paço Imperial, no centro, vestidos, documentos e elementos do universo da estilista, que viveu uma saga para denunciar o desaparecimento do filho Stuart Angel Jones pelo regime militar na década de 1970. Zuzu usou sua arte para protestar contra a ditadura dentro e fora do país e morreu em um acidente de carro, com causa pouco esclarecida.

Zuleika de Souza Netto era natural da cidade mineira de Curvelo. Casou-se com o norte-americano Normal Angel Jones e estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde montou um ateliê em sua própria casa. Teve seu talento reconhecido ao misturar elementos da cultura brasileira ao vestuário de modelagem simples, mas contemporâneo. Usou rendas, bordados e pedrarias.

O destaque da exposição Ocupação Zuzu são intervenções em que atrizes desfilam réplicas dos vestidos da estilista e declamam cartas que foram enviadas a amigos, a mães de outros desaparecidos e a autoridades na busca por Stuart. O jovem desapareceu no auge da carreira da mãe, depois de ser preso. Em sua busca, Zuzu fez um desfile de protesto em Nova York. A partir de então, incorporou ao luto a roupa preta, o véu, crucifixos e o cinto, em forma de protesto.

“Esse desfile foi uma ação entre muitas outras. Ela não fez esse desfile e parou. Até a sua morte ela nunca parou. Atuou o tempo todo. Militou o tempo todo”, disse a filha mais jovem da estilista, a colunista Hildegard Angel, em nota sobre a exposição, da qual é curadora. Ela conta também que a mãe fez santinhos com o rosto do irmão e buscou ajuda de políticos, artistas, jornalistas e até militares. Chegou a costurar para a esposa do general Artur da Costa e Silva em busca de informações que pudessem levar ao paradeiro de Stuart Angel.

Para a presidenta da Comissão Estadual da Verdade, Nadine Borges, pelo coragem em denunciar as violações de direitos humanos no regime militar, Zuzu tornou-se referência. “Era um período em que pessoas com capital econômico ajudaram o golpe. Ela foi uma exceção. Fez tudo o que podia, usou suas relações profissionais e pessoais, desafiando a ditadura para encontrar o filho e denunciar a tortura e os desaparecimentos de ativistas políticos no Brasil”, frisou.

Nadine, que esteve na abertura da exposição, também destaca o peso da luta de Zuzu na obra da estilista. “Ela usou a criatividade nos cortes, no desenhos, e as cores para transmitir esperança. Chega a ser atual”, completou, sobre a mostra, que abre de terça a domingo, das 12h às 18h. As intervenções culturais, com a leitura das cartas, no entanto, ocorrem apenas uma vez por mês, aos finais de semana, a começar por este sábado (16) e domingo (17).
Agência Brasil
Fonte Agência Brasil 17/08/2014 ás 11h

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