"Era uma vez uma história contada outra vez"

Fonte Jornal da Unicamp 11/04/2013 às 21h

Dissertação de mestrado integra projeto sobre educação infantil.

Ao abrir minhas janelas e avistar o ‘Reino Encantado da Educação Infantil’, aprendi a olhar e pude ver essas ‘pequenas felicidades’ existentes neste espaço. Os habitantes deste Reino, adultos e crianças, podem ser para além de reis, rainhas, príncipes e princesas, podem enveredar-se pelas trilhas das narrativas e adentrar no portal da dramatização, seguindo para onde a sua imaginação os levar.” Assim a educadora Tânia Alves inicia as considerações sobre sua pesquisa desenvolvida para a dissertação “Narrativa e dramatização nos entrelugares da educação infantil”. Sua investigação está entre as dissertações de mestrado desenvolvidas dentro do Projeto “Era uma vez uma história contada outra vez”, único na região Sudeste selecionado na primeira edição do Pró-Cultura, financiado pelos ministérios da Cultura (MinC) e da Educação (MEC), em 2009.

Parados, sentados ou debruçados em centenas de pedacinhos de papel com letras e números que mais à frente deveriam memorizar para ser alfabetizados. Este foi o cenário que chocou, na década de 2000, a então novata educadora Tânia Alves. A experiência com dança, teatro e canto adquirida na infância talvez não pudesse ser aplicada naquele espaço, mas alguns momentos de ousadia foram importantes não só para organizar cadeiras em círculo, mas também para ampliar o espaço livre e iniciar movimentos e dramatizações. Isso porque criança precisa movimentar o corpo, e Tânia resolveu proporcionar isso por meio da dramatização e da arte de contar histórias.

Enredos os mais variados surgiram e ainda surgem das experiências das próprias crianças e não do tradicional “teatrinho” de escola, semipronto ou pronto, ou seria imposto. Assim Tânia foi transformando, em seu pequeno, o espaço da educação infantil e ao mesmo tempo seu ambiente de pesquisa, já que lá nasceram todas as reflexões presentes na dissertação. Do mesmo modo, o espaço da educação transformava sua prática. Assim como a oportunidade de participar de cursos na academia, mudou sua vida. Depois de alguns anos da formatura em pedagogia pela Unicamp, em 2004, ela teve oportunidade de participar do curso “Educação, corpo e dança”, oferecido pelo Laboratório de Estudos sobre Arte, Corpo e Educação (Laborarte) da Faculdade de Educação em parceria firmada com a Prefeitura de Campinas.

Ao cuidar de seu pequeno espaço, Tânia viu sua iniciativa se transformar em projeto maior, dentro da escola e sequencialmente em outras unidades da rede pública de ensino. As reflexões que permeiam a pesquisa são feitas a partir do olhar obtido nessas experiências todas. As reflexões autorizam Tânia a afirmar que é possível fazer do espaço de educação infantil um ambiente transformador, alegre e prazeroso, com respeito ao direito da criança de viver sua infância.

Com respaldo na teoria histórico-cultural de Vygotsky e nas teorias da pedagogia da infância, Tânia disse ter tomado a iniciativa de reclamar na educação infantil um trabalho que envolva a arte e as expressões corporais e estéticas das crianças por meio da narrativa e da dramatização. “De acordo com as teorias, a criança precisa de tempo livre para criar, brincar, imaginar, fazer de conta, o qual é imprescindível para o desenvolvimento nesta etapa da vida”. Ela acrescenta que, de acordo com os teóricos, essa prática supera a de um ensino antecipado, que acaba encurtando a infância e desrespeitando o direito da criança.

A desenvoltura torna mais convincente o encontro entre o real e o fantasioso no imaginário narrado pelos pequenos contadores acompanhados por Tânia. Ao alinhavar a prática às teorias que tratam as crianças como produtoras culturais, donas de seu processo de criação, a educadora constata que a arte pode ampliar o repertório infantil, pois ao ouvir e narrar, o imaginário delas é desafiado e as torna mais criativas, desenvoltas e permite misturar o real com a fantasia. “Nessa fase, as crianças aprendem mais enquanto brincam e entram nesse mundo do faz de conta.”

Tânia acentua que, de acordo com o modelo histórico-cultural, os traços de cada ser humano estão intimamente relacionados ao aprendizado e à apropriação do legado do seu grupo cultural. A história educativa e as experiências das crianças, relacionadas ao grupo social e à época em que eles se inserem, influenciam o comportamento e a capacidade cognitiva, de acordo com a pesquisadora. Diante disso, ela aponta a importância de o professor estabelecer uma prática pedagógica que valorize a arte e suas linguagens artísticas. “É possível que este tipo de trabalho aconteça no ambiente de educação infantil. Procurei promover experiências estéticas e corporais, não somente às crianças, mas às profissionais também.” Tânia garante que as práticas vivenciadas durante a pesquisa se mostraram de grande importância no desenvolvimento da capacidade imaginária e criativa das crianças.

Mais que um argumento, as palavras sobre a atuação profissional traduzem um sonho da educadora: o de poder, um dia, apreciar ainda uma formação capaz de estimular profissionais de educação a desenvolverem atividades corporais com as crianças. Isso, em sua opinião, viria contrariar o modelo escolar em que os pequenos escolares permaneçam sentados na maior parte do tempo. O relato da vivência proporcionada às professoras participantes, bem como as observações pertinentes no texto da dissertação, deixam clara a necessidade de um investimento maior numa formação de qualidade das profissionais e no trabalho com a arte nas instituições de educação infantil. “O lugar da arte ainda é muito pequeno no ambiente da educação infantil.”

Ao contrário da ideia de que em todas as unidades de educação infantil as crianças podem se expressar livremente para brincar, os registros revelam que existem muitas práticas pedagógicas a tratar as crianças pequenas igualmente às do ensino fundamental, com o objetivo de prepará-las para ingressar nesta escola. Segundo Tânia, as crianças acabam sendo submetidas à prática intensa do desenho de letras e números que, muitas vezes, não lhes fazem nenhum sentido. “Esse modelo institucional escolarizante se revelou, durante minha trajetória profissional, como uma organização da vivência infantil apartada dessas experiências artísticas e sensíveis.”

Tânia constata que a escola infantil é local de contradições, onde duas práticas se chocam: aquela que vê a criança como produtora de cultura almejando um trabalho significativo com a arte, e outra escolarizante, com vista à preparação para o ensino fundamental. “A contradição, no entanto, não é algo a ser expulso, mas deve ser vista nas negociações entre as profissionais do espaço educativo, como uma potencial ferramenta de movimentação do cotidiano infantil e uma possibilidade de formação de parcerias”, argumenta. Para ela, quanto mais os profissionais oferecerem, neste espaço, oportunidades de experiências ricas e diversificadas, mais as crianças terão a chance de vivenciar situações desafiadoras que lhes tenham sentido, o que oferece condições para a formação de novos interesses infantis. “Nesse ponto, o papel docente envolve planejamento, organização do espaço e execução de atividades capazes de tornar isso possível.”

LUGAR DA ARTE

A exploração do espaço escolar também é questionada na dissertação de Priscilla Vilas Boas, intitulada “A improvisação em Dança: um diálogo entre a criança e o artista professor”. A expressão artística escolhida por Priscila para trabalhar com crianças de 7 a 11 anos da Escola Municipal de Iniciação Artística do Município de São Paulo (Emia) foi a dança. As atividades de improvisação realizadas no espaço, uma unidade do Departamento de Expansão Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, ajudou a refletir sobre um modo de ensino que respeite o desejo de todos os envolvidos no processo de construção do conhecimento e se desprenda de estruturas rígidas impostas em muitos ambientes escolares. O projeto, segundo a educadora, propõe a iniciação de seus alunos nas linguagens artísticas de maneira integrada e de forma a estimulá-los a ser autores e propositores durante sua própria construção de conhecimento em dança.

Na academia, a discussão sobre o lugar da arte no ambiente escolar se amplia. O projeto “Era uma vez uma história contada outra vez”, com patrocínio dos ministérios, é um exemplo disso. Coordenadora geral do projeto e orientadora das dissertações de Tânia e Priscila, Márcia Strazzacappa não titubeou ao tomar conhecimento do edital, que previa um projeto com duração de dois anos e a titulação de três mestres. Entrou em contato com as professoras Karenine Porpino, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e Valéria Figueiredo, criadora do curso de dança na Universidade Federal de Goiás, e submeteu o projeto. A iniciativa resultou em três dissertações, duas da Unicamp e uma da UFRN, oficinas de formação e na produção de um CD com libreto com mesmo título do projeto.

Márcia ressalta a importância de o professor poder ser um pesquisador na escola, já que este é o ambiente de pesquisa de um educador. E tanto Tânia quanto Priscila puderam conferir a boa qualidade dos resultados da pesquisa dentro da escola. Para Márcia, o projeto é mais uma motivação para que o conto seja explorado no espaço escolar e, dessa forma, a expressão artística. Professora da disciplina Educação, Corpo e Arte, ela explica que as atividades de expressão corporal têm tido impacto no trabalho de professores formados pelo curso de pedagogia. A disciplina que iniciou como eletiva, hoje é exigida no currículo do curso.

Além da pós-graduação de Priscila e Tânia, Márcia comemora o resultado apresentado no evento de encerramento do projeto, em dezembro do ano passado, em que, numa rodada de narração de histórias, professores se desprenderam do nó que os mantinha naquele cenário relatado por Tânia em sua primeira experiência profissional. Optamos por ter um evento rico em qualidade e não quantidade de pessoas. Foi enriquecedor pela qualidade das histórias e do público”, comenta Márcia.

A resposta dos professores-contadores deixa a esperança de que as letras antes recortadas, fragmentadas, agora estão unidas novamente nos enredos saídos da imaginação dos pequenos autores. Os corpos mirrados, antes enfileirados, agigantaram-se diante a possibilidade de se comunicar com todos os cantos da sala, cada vértice do pátio escolar. Descobriram que a roda de conversa da professora Priscila se move. E a sala de aula não será mais a mesma.

Publicação
Dissertação:
“Narrativa e dramatização nos entrelugares da educação infantil”
Autora: Tânia Alves
Dissertação: “A improvisação em Dança: um diálogo entre a criança e o artista professor”.
Autora: Priscilla Vilas Boas
Orientadora: Márcia Strazzacappa
Unidade: Faculdade de Educação (FE)

Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 11/04/2013 ás 21h

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