Encontro de Quito deve discutir elaboração de políticas comuns

Fonte Ansa Flash 19/11/2009 às 0h
Por JOSÉ HENRIQUE LOPES

A reunião do Conselho Sul-Americano de Defesa, que ocorre hoje na capital do Equador, poderá ser útil para discutir qual será o impacto que o novo acordo militar que a Colômbia assinará com os Estados Unidos exercerá sobre a definição de eventuais políticas comuns de segurança para o continente.

A opinião é do professor Rafael Duarte Villa, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP). Em entrevista à ANSA, o especialista diz que não espera que a nova reunião avance nas discussões sobre o convênio entre Bogotá e Washington, que prevê a cessão, durante a próxima década, de sete bases colombianas a até 1.400 oficiais norte-americanos.

"A reunião de ministros da Defesa poderia avançar no esclarecimento de alguns pontos específicos do acordo, ou discutir como ele pode prejudicar a possível criação de políticas de defesa comum na América do Sul, por meio do Conselho de Defesa", diz Villa, que emenda: "mas não se pode esperar muitos avanços".

O especialista lembra que o tema já foi tratado "em seu mais alto nível", quando os chefes de Estado da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) se reuniram em Bariloche, na Argentina, no fim de agosto.

O encontro, porém, estendeu-se por mais de seis horas e chegou ao fim sem um consenso claro. O presidente colombiano, Álvaro Uribe, resistiu à pressão dos colegas e se negou a apresentar detalhes do convênio. "Acabaram optando por uma saída diplomática, que na verdade consolidou essas negociações entre Colômbia e Estados Unidos", explica.

No comunicado oficial emitido ao fim da cúpula, os presidentes da região se limitaram a delegar ao Conselho Sul-Americano de Defesa a tarefa de "analisar acordos existentes entre países da região e extrarregionais, bem como o combate aos tráficos de armas e de drogas e o terrorismo". O caso colombiano, porém, não foi citado claramente em nenhum momento.

A exemplo do que fez Uribe na Argentina, a delegação colombiana que foi a Quito adiantou que irá propor no encontro ministerial a análise de outros temas que envolvem a segurança da região.

Para Villa, no entanto, esta foi uma maneira encontrada por Bogotá para dissipar a discussão sobre o convênio com Washington. "É uma forma de diluir a problemática que envolve a instalação dessas bases. Trata-se de um tema um pouco mais preocupante, pois implica na presença direta de tropas estrangeiras em território sul-americano", sustenta.

Os governos de Venezuela, Equador e Bolívia, especialmente, argumentam que a utilização das bases por estrangeiros pode colocar em risco suas respectivas soberanias e desatar uma corrida armamentista na região.

Bogotá, no entanto, alega que se trata de uma continuação da colaboração que já é mantida com os Estados Unidos há anos, por meio principalmente do Plano Colômbia, programa criado em 2000 e no qual Washington envia ao país sul-americano milhões de dólares todos os anos para financiar a guerra contra as guerrilhas e o narcotráfico.

"Este certamente será um reforço para a ideia defendida por Uribe de que só é possível derrotar os grupos insurgentes e narcotraficantes pela via militar", afirma Villa.

Continuidade

Contudo, na visão do professor, embora seja uma novidade na parceria entre Bogotá e Washington, o interesse norte-americano por bases no sul obedece a uma política que já existia.

"Na verdade, dá-se continuidade a uma política que vem sendo coordenada pelos Estados Unidos desde a saída da base Howard, no Panamá", diz o especialista. Em 1999, por meio de um acordo assinado pelos então presidentes dos Estados Unidos, Jimmy Carter, e do Panamá, Omar Torrijos, ainda no ano de 1977, as tropas norte-americanas foram retiradas do país.

"Os Estados Unidos ficaram muito preocupados a partir desse fato, pois viram que de alguma forma perderiam sua principal ponte de patrulhamento da região", recorda.

"Então, desde a administração [do ex-presidente, Bill] Clinton, negociam com os latino-americanos a instalação de bases. Negociou com El Salvador e não deu certo, e também com a Costa Rica", diz.

"Negociou até mesmo com o Brasil, na base de Alcântara [situada no Maranhão], mas também não deu certo", afirma.

De acordo com o especialista, o único diálogo em que houve sucesso foi quanto à base de Manta, no Equador. Com a chegada de Rafael Correa ao poder, porém, a situação se alterou, e o convênio que previa o uso norte-americano destas instalações, que expira neste ano, não será renovado.

"Mas, se antes havia uma única base, agora serão sete", ressalta Villa. Para ele, a continuidade de uma política que surgiu ainda na década de 1990, com Clinton, atravessou as duas administrações de George W. Bush e segue ainda agora "tira qualquer posição exageradamente otimista" de que o atual presidente, Barack Obama, "traria uma política nova para o hemisfério". "Na verdade, você nota mais uma continuidade que ruptura", destaca.
Ansa Flash
Fonte Ansa Flash 19/11/2009 ás 0h

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