CPQBA testa fitoterápico para cicatrização de lesões

Fonte Jornal da Unicamp 25/03/2013 às 16h

CPQBA testa fitoterápico para cicatrização de lesões

Medicamento está sendo desenvolvido a partir da
planta conhecida como crajiru.

Pesquisadores da Unicamp estão perto de disponibilizar dados necessários à produção de um novo medicamento fitoterápico para cicatrização de lesões de pele e mucosa, a partir da Arrabidaea chica Verlot, planta conhecida popularmente como crajiru. Não se trata apenas de colocar mais um cicatrizante no mercado, como faz entender a professora Mary Ann Foglio, pesquisadora da Divisão de Fitoquímica do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp. “O produto tem um poder cicatrizante muito bom que poderá atender àqueles pacientes que desenvolvem ulcerações em consequência de diabetes ou ainda pacientes imunodeprimidos.”

A professora orientou a dissertação de mestrado de Ilza Maria de Oliveira Sousa, que avaliou a estabilidade do extrato seco e criou formulações semissólidas com os extratos padronizados produzidos a partir das folhas de crajiru. Este trabalho já contribuiu para o depósito da segunda patente na Agência de Inovação Inova da Unicamp, no final do ano passado. A primeira patente é sobre processos para microencapsulação do extrato da planta (micro e nanopartículas), enquanto esta se refere às técnicas para produção de nanopartículas de longa duração. Há negociações em torno de ambas as patentes com uma empresa farmacêutica nacional.

Mary Ann Foglio explica que as pesquisas envolvendo o crajiru estão sendo desenvolvidas dentro de programas de pós-graduação da Unicamp. A dissertação de Ilza se deu através do programa em Biociências e Tecnologias de Produtos Bioativos, do Instituto de Biologia (IB). “Outras teses sobre essa planta estão em andamento, focando a parte estritamente farmacológica, como o da aluna Michelle Jorge dentro do programa de clinica médica da FCM; o desenvolvimento de nanopartículas, por Leila Servat, e aplicações odontológicas, com Patrícia Zago, ambas no programa de odontologia da FOP. Todo trabalho tem sido financiado pela Fapesp. Tantas pesquisas mostram a quantidade de dados necessária para gerar um produto farmacêutico a partir de insumos vegetais.

Segundo a docente, o crajiru vem exigindo trabalhos em sequência desde 2003, quando foram trazidas ao CPQBA as primeiras variedades provenientes de todas as regiões do país, a fim de se observar a variabilidade entre elas quando cultivadas nas mesmas condições. “O maior desafio para desenvolver um fitoterápico é que ele deve atender aos mesmos parâmetros de um medicamento alopático: precisamos garantir que ele seja eficaz, seguro e, um dos maiores desafios, a sua reprodutibilidade. Foram cinco anos avaliando a matéria-prima, num controle mensal para compreender as variações da planta conforme as condições climáticas, bem como para verificar em que período do ano produzia maior efeito farmacológico, a fim de determinar os parâmetros importantes para monitorar os estudos e desenvolvimento do produto final.”

ESCALA SEMIPILOTO
Ilza Maria, autora da dissertação, recorda que estudos desenvolvidos no CPQBA já comprovaram que o extrato bruto de crajiru induz a proliferação de fibroblastos (células que agem na cicatrização de ferimentos) e estimula a síntese de colágeno (proteína que confere elasticidade e firmeza à pele). Em seu trabalho, visando à produção de um medicamento, ela promoveu a transposição da escala laboratorial para uma escala semipiloto, determinando o processo de secagem, armazenamento e as embalagens mais adequadas ao produto. “Nossa pesquisa envolve compostos muito sensíveis, que se degradam facilmente nas condições atmosféricas normais de processamento”, afirma.

A pesquisadora dispôs na bancada do laboratório amostras do composto na forma livre, extraída da planta com etanol, e outra exposta a 40ºC e com 75% de umidade, que tinha aparência petrificada e enegrecida feito pedacinhos de carvão. “Por essa razão propusemos o encapsulamento, que é uma maneira de aumentar a vida útil do composto. Produzimos microcápsulas com três materiais diferentes: goma arábica, goma de cajueiro e uma mistura de goma arábica e maltodextrina. Essa última mistura não foi tão estável e o composto na forma de creme, depois de 30 dias de armazenamento, perdeu a coloração inicial e o teor de carajurina (que atribui cor avermelhada ao extrato). Já com outra matriz polimérica, a goma arábica, a coloração ficou preservada por 180 dias.” Depois de caracterizar a matéria-prima e as melhores matrizes poliméricas, Ilza Maria passou às formulações semissólidas para uso tópico, produzindo cremes e diferentes tipos de géis. Ela atestou que o gel de Carbopol, o gel de Natrosol e os cremes avaliados em modelos experimentais de cicatrização in vivo reduziram de 80% a 70% a área cutânea ulcerada, após 10 dias de tratamento, comparada ao grupo controle que demonstrou redução de 37%.

ESTUDOS CLÍNICOS
A professora Mary Ann Foglio adianta que o desafio de Ilza Maria Sousa continua no doutorado, realizando pesquisas no Laboratório Thomson de Espectrometria de Massas do IQ. “Seu objetivo agora é entender como o produto se comporta depois de aplicado – se penetra nas camadas de pele, se vai para a corrente sanguínea – e que tipos de componentes metabólicos ele gera como resposta. Essa fase do trabalho está bem no início, mas podemos afirmar que já temos muitos dados que possibilitarão finalizar os estudos pré-clínicos”.

De acordo com a docente, após estudos de toxicidade e testes mutagênicos será possível viabilizar parcerias com o Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp e Hemocentro para iniciar os estudos clínicos junto a pacientes, necessários antes de lançar o produto no mercado. “No CPQBA somos capazes de finalizar todos os estudos pré-clínicos. Em se tratando de estudos com plantas medicinais, muito é feito na academia para descobrir os componentes ativos, mas ainda são poucos os trabalhos que vão desde a triagem inicial de identificação de espécies de interesse farmacêutico até os estudos farmacológicos, químicos e farmacotécnicos para viabilizar um medicamento fitoterápico.”

Planta é mais
comum na Amazônia

A espécie Arrebidaea chica Verlot, o crajiru, integra a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (Renisus), que é constituída por plantas nativas ou exóticas adaptadas, amplamente utilizadas pela população brasileira e que apresentam evidência para indicação na atenção básica de saúde. Muitas dessas espécies, entretanto, necessitam de estudos que confirmem sua eficácia e segurança. Ao crajiru são atribuídas propriedades terapêuticas para enfermidades da pele.

Apesar de ser encontrada em todo o país, a A.chica é mais comum na Amazônia, onde é utilizada principalmente pelos indígenas como corante para pintar o corpo e também para infecções fúngicas (microbianas). O Centro de Pesquisa Agroflorestal da Embrapa de Rondônia informa sobre outros usos medicinais, como em infecções de origem uterina e males do fígado, estômago e intestino; informa ainda sobre sua serventia para diarreias, leucemia, conjuntivite aguda e para o ataque de insetos (na forma de pasta).

A mesma página da Embrapa confirma que, após a fermentação, as folhas do crajiru fornecem uma matéria corante vermelho-escuro ou vermelho-tijolo, insolúvel na água e solúvel no álcool e no óleo, utilizada pelos índios para pintura do corpo e de utensílios. O crajiru também é utilizado como pigmento para algodão, tendo sido exportado em pequena escala no início do século, como corante vermelho-americano. A A.chica é descrita como planta arbustiva trepadeira, ganhando outros nomes populares como carajurú, capiranga, cipó cruz, grajirú, crajurú, guarajurupiranga, pariri e piranga.

Publicações
Dissertação: “Avaliação da estabilidade do extrato seco e formulações de bases semi-sólidas, contendo Arrabidaea chica Verlot, para uso em cicatrização”
Autora: Ilza Maria de Oliveira Sousa
Orientação: Mary Ann Foglio
Unidades: Instituto de Biologia (IB) e Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA)

Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 25/03/2013 ás 16h

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