Contra a negligência, a boa ciência

Fonte Jornal da Unicamp 22/05/2013 às 15h

Contra a negligência, a boa ciência

Pesquisadores do IQ dedicam-se à produção de compostos para tratamento de doenças negligenciadas.

O Brasil registrou, entre 2000 e 2011, uma média de 423 mil casos de malária por ano, segundo dados do Ministério da Saúde. Destes, 99,7% ocorreram na Região Amazônica. No mundo, a doença, própria de países pobres ou em desenvolvimento, provoca 800 mil mortes anuais. Embora exista tratamento contra a enfermidade, a ciência ainda busca por fármacos que possam finalmente erradicá-la. Tal esforço passa por uma rede mundial, integrada pelo Laboratório de Química Orgânica Sintética (LQOS) do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, único representante sul-americano. Lá, os pesquisadores desenvolvem compostos com alto potencial terapêutico e que podem, no futuro, gerar medicamentos ainda mais eficazes contra a endemia.

Coordenado pelo professor Luiz Carlos Dias, o LQOS mantém uma linha de pesquisa voltada ao desenvolvimento de compostos destinados ao tratamento das chamadas doenças negligenciadas, entre as quais a malária. Em 2008, o laboratório firmou um convênio com a Organização Mundial da Saúde (OMS), que durou cerca de três anos. Nesse período, a unidade produziu cerca de 150 análogos voltados mais especificamente à terapia da doença de chagas. “Infelizmente, por falta de recursos, a OMS teve que suspender o financiamento dos estudos”, relata o docente do IQ, observando que o trabalho teve sequência, porque o laboratório utilizou recursos de outras fontes.

Recentemente, duas organizações não governamentais, a Medicines for Malaria Venture (MMV, www.mmv.org) e a Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi, www.dndi.org), que são vinculadas à OMS, retomaram os trabalhos e procuraram pelo professor Dias. O objetivo de ambas era o mesmo: firmar parcerias para que o LQOS produza compostos com potencial terapêutico contra as doenças negligenciadas. No caso da MMV, o foco é obviamente a malária. No da DNDi, a atenção está voltada prioritariamente para a Doença de Chagas e a leishmaniose.

O convênio com a MMV, que tem duração prevista de 36 meses, já foi assinado com a Unicamp, e os pesquisadores do LQOS estão em plena atividade. Desde março, eles já produziram dez análogos, a partir de um composto padrão cuja estrutura foi enviada pela ONG. Esses análogos foram enviados à MMV, na primeira quinzena de maio, que posteriormente os encaminhará a outros laboratórios responsáveis pelos testes in vitro e in vivo. No caso da DNDi, o convênio ainda está sendo analisado pelo Conselho Universitário (Consu), órgão máximo deliberativo da Unicamp. “Pela importância e alcance social do estudo, acredito que essa parceria também será aprovada”, arrisca o professor Dias.

Segundo ele, a MMV possui o que os especialistas denominam de Open Access Malaria Box. Esta caixa é constituída por 400 diferentes compostos que apresentam, comprovadamente, atividade antimalárica. Estes pertenciam a uma biblioteca com cerca de 20 mil compostos, que foram colocados à disposição da comunidade científica, em 2010, por meio de publicações da Novartis, do St Jude’s Children’s Research Hospital e da GlaxoSmithKline. O dado relevante e muito promissor relacionado a esses compostos, conforme o professor Dias, é que eles foram desenvolvidos para o tratamento de outras doenças, notadamente os diversos tipos de câncer.

Eles não surtiram o resultado esperado para esses males, mas demonstraram atividade contra a malária, com longos tempos de meia-vida oral. Também geraram importantes informações a respeito de seu metabolismo e farmacocinética. “Esse aspecto é importante, pois nosso trabalho não parte da estaca zero. Nós já sabemos que esses compostos apresentam potencial antimalárico. O nosso trabalho, agora, é realizar modificações na estrutura deste protótipo inicial que nos foi enviado pela MMV, de modo a ampliar a sua capacidade terapêutica”, explica o docente do IQ.

Por enquanto, o laboratório coordenado por Dias recebeu somente um dos 400 compostos da Open Access Malaria Box. A ideia é produzir entre 50 e 60 análogos a partir deste primeiro alvo, para que sejam testados posteriormente in vitro e in vivo. “Assim que encerrarmos essa etapa, a MMV nos enviará mais um composto, a partir do qual produziremos mais um lote de análogos e assim sucessivamente. Esse trabalho também é feito paralelamente por outros laboratórios no exterior, formando uma rede. A meta é esgotar os 400 compostos disponíveis na Open Access Malaria Box e chegar a um medicamento que possa finalmente erradicar a doença”, adianta.

Todas as informações geradas pelos estudos são registradas num banco de dados, que fomenta a troca de ideias entre os pesquisadores. “Uma vez ao mês, nós fazemos uma reunião por telefone e falamos sobre os avanços e entraves registrados. Com isso, conseguimos aprimorar as ações e, eventualmente, fazer correções de rumo”, acrescenta o docente. Um grande diferencial do convênio com a MMV, e que também orientará a cooperação a ser firmada com a DNDi, destaca o cientista, é que os trabalhos contam com a consultoria internacional de químicos, bioquímicos, biólogos, médicos e farmacêuticos com vasta experiência em pesquisa e desenvolvimento na indústria farmacêutica.

Um desses consultores é o cientista Simon Campbell, que liderou o desenvolvimento de uma série de medicamentos, entre eles o Viagra. “Esse tipo de colaboração é fundamental. Profissionais como Campbell ajudam a nos orientar, por exemplo, quanto ao uso ou não de um determinado substituinte. Pela experiência que têm, eles sabem quando um deles pode provocar uma reação adversa. Com isso, poupamos tempo e esforços”, detalha Dias.

O docente da Unicamp diz ficar muito satisfeito em poder contribuir para o esforço de erradicação das doenças negligenciadas, pois sem a participação de universidades e instituições de pesquisas tal iniciativa dificilmente seria executada. “Obviamente, a indústria farmacêutica não está interessada em pesquisa e desenvolvimento de fármacos e medicamentos contra esse tipo de enfermidade, pois eles não dão lucro. Assim, cabe a nós assumirmos essa tarefa. Eu conto com dois pós-doutorandos, Pablo Martinez e Susann Krake, que atuam diretamente no convênio com a MMV. Eles recebem bolsas da entidade. O que eu disse a eles é que o trabalho que desenvolvem está diretamente relacionado a uma aplicação na área social. A publicação de artigos, se acontecer, será uma consequência e não um objetivo das atividades”.

Ainda a respeito do alcance social das pesquisas envolvendo doenças negligenciadas, o professor Dias esclarece que os pesquisadores têm outra preocupação além de desenvolver análogos com elevado potencial antimalárico. “Um ponto importante que sempre deve orientar o nosso trabalho é a busca por processos e insumos que não tornem o preço final do medicamento muito alto. Dessa forma, conseguiremos facilitar o acesso por parte dos doentes, que normalmente pertencem a populações carentes, bem como dos programas de saúde pública dos respectivos países onde a malária é endêmica”.

Em relação à malária propriamente dita, um aspecto tem deixado as autoridades de saúde pública apreensivas. Atualmente, a doença tem tratamento. Ocorre, porém, que o único recurso disponível é a artemisinina, um composto derivado da Artemisia annua, planta medicinal de origem chinesa. “O fato de termos apenas uma ‘bala na agulha’ é preocupante porque, a exemplo do que acontece com algumas bactérias, que se tornam resistentes aos antibióticos, é possível que os parasitas causadores da malária também possam se tornar resistentes à artemisinina. Caso isso aconteça, o tratamento será seriamente prejudicado. Por isso, é fundamental que busquemos novos compostos com alto potencial terapêutico”, pondera o professor Dias.

Picada de mosquito transmite parasita

A malária é causada por um parasita transmitido ao homem pela picada de um mosquito (Anopheles infectados). No organismo, o parasita se desloca até o fígado, onde amadurece e assume outra forma. Esta entra na corrente sanguínea e infecta as hemácias. Os primeiros sintomas aparecem geralmente entre 10 dias e 4 semanas, embora esses períodos às vezes possam ser reduzidos ou prolongados. Após a manifestação, os sintomas ocorrem em ciclos de 48 a 72 horas. São eles: febre alta, dor de cabeça, dor no corpo, fraqueza, dor abdominal e mal-estar generalizado, entre outros. A enfermidade causa consideráveis perdas sociais e econômicas, atingindo principalmente a população de países pobres e em desenvolvimento, notadamente aquela que vive em condições precárias de habitação e saneamento.

Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 22/05/2013 ás 15h

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