China domina produção científica de emergentes; no Brasil, biológicas preponderam

Fonte Imprensa Unicamp 22/04/2013 às 11h

Relatório da Thomson-Reuters compara produção acadêmica e investimento em inovação de Brasil, China, Rússia, Índia e Coreia do Sul

 
Thomson Ruters/Reprodução
Produção científica brasileira é dominada pelas áreas de biologia e saúde, mostra levantamento

As economias emergentes de Brasil, Rússia, Índia, China e Coreia do Sul (grupo “Brick”) já respondem por parte significativa da produção científica e do investimento em inovação global, numa quase inversão do cenário de 40 anos atrás, quando praticamente todo conhecimento produzido no mundo vinha das sete maiores economias industrializadas do planeta, o G7. Em 1973, dois terços dos artigos científicos publicados tinham pelo menos um autor do G7. Hoje, essa proporção mal chega à metade.

“Capital humano é o componente essencial da base de pesquisa e seu produto mais importante" “O número de artigos com assinatura de pelo menos um autor do G7 pode ter triplicado nesse período”, diz o relatório Building Bricks, da agência Thomson-Reuters, “mas o volume sem nenhuma autor do grupo multiplicou-se por seis”. Nas duas décadas de 1992 a 2011, a proporção entre artigos científicos dos Bricks para artigos do G7 passou, de 1:12, para 1:2. Já a razão entre número de patentes depositadas foi 1:6 para 1:1.

O principal motor desse avanço tem sido a China, que de 2000 a 2011 elevou sua produção de artigos acadêmicos em 600%. “A China se elevou a um novo paradigma”, diz o relatório. “Coreia do Sul e Brasil vêm desenvolvendo uma curva ascendente. A Índia tem sido o ‘gigante adormecido’” do grupo, mas deve alcançar uma produção científica comparável à dos principais países da União Europeia até 2020, estimam os autores. A Rússia, por sua vez, perdeu a liderança absoluta que tinha sobre os demais países do grupo, ao final dos anos 80, e hoje mantém um ritmo de produção que parece estagnado.


Foco

O Brasil acelerou o ritmo de sua produção a partir de meados da década de 90 e depois, com novo impulso,no período de 2006 a 2008, quando rompeu a barreira dos 25.000 artigos indexados anualmente na Web of Kowledge da Thomson-Reuters.

O país se destaca no relatório por ser o único, no grupo Brick, onde nove das dez áreas de pesquisa mais produtivas estão ligadas a um mesmo campo, o das ciências da vida.

Em comparação, a China (11% da produção mundial) tem, em suas dez áreas mais produtivas, disciplinas diversos como química, matemática e computação; a Índia (3,4%), engenharia, física e geociências; a Coreia do Sul (3,3%), farmacologia, computação, física.

Na média de 2007 a 2011, o Brasil respondeu por 2,6% da produção científica global, diz o relatório, mas colaborou com 8,8% de toda a pesquisa agrícola, e 6,6% dos estudos sobre plantas e animais. Outras áreas onde o país se destacou em produtividade foram farmacologia, microbiologia, ecologia, ciências sociais, clínica médica, biologia, neurociências e imunologia.

“Para o Brasil, pode-se argumentar que a ausência de tecnologias baseadas em ciências físicas em suas principais áreas de concentração poderá se tornar um fator limitante para o desenvolvimento”, adverte o relatório.

Impacto

Outra peculiaridade brasileira é a de que o impacto das publicações – medido com base na média de citações obtidas por artigos científicos – não acompanha a produtividade.

Segundo o índice da Thomson-Reuters, não só a taxa de citações de trabalhos brasileiros sofreu uma queda abrupta no mesmo período (2006 a 2008) em que a produtividade superava a marca dos 25.000 artigos anuais, como as áreas de conhecimento onde o trabalho brasileiro é mais reconhecido – com uma taxa de citações superior a 80% da média mundial – não estão entre as mais produtivas. As pesquisas brasileiras mais citadas internacionalmente são de física, matemática e engenharia, não de agricultura ou biologia. Entre as dez áreas de conhecimento onde os brasileiros acumulam mais citações, apenas três – a sétima, a oitava e a nona – têm ligação com as ciências da vida, sendo respectivamente psicologia, ecologia e clínica médica.

O Brasil se destaca no relatório por ser o único "Brick" onde nove das dez áreas de pesquisa mais produtivas estão ligadas a um mesmo campo “O aumento de produção, que reflete o aumento do investimento, não vai se traduzir imediatamente em pesquisa de classe mundial, porque (...) leva tempo para treinar uma nova geração de pesquisadores, e também para chamar a atenção do resto do mundo”, dizem os autores do relatório.

Para todos os países do Brick, a tendência é de aumento na participação de sua produção científica na parcela de 1% dos artigos científicos mais citados em cada área. A China já produzia, em 2010, 1.000 artigos com essa característica. O Brasil, no mesmo ano, publicou 165, o que significa que 0,5% da produção científica nacional chegou ao 1% de excelência mundial (no caso chinês, a fração foi de foi 0,8%).

Inovação

O relatório aponta a China como o país do grupo que mais “abraçou a inovação como motor do crescimento econômico”, por meio de uma série de planos quinquenais para transformar a economia chinesa numa “economia do conhecimento”. Entre as metas adotadas pelo plano mais recente, estão elevar a fração do PIB investida em pesquisa e desenvolvimento, de 1,75% para 2,2% até 2015; elevar a posição dos artigos científicos do país no ranking dos mais citados; aumentar a proporção de patentes de invenção por 10.000 habitantes, de 1,7 para 3,3.

O trabalho da Thomson-Reuters reconhece que contar número de patentes não é uma métrica perfeita para acompanhar a inovação, mas diz que é uma das “melhores medidas tangíveis”, e adota-a em sua análise. Nesse critério, os dois pesos-pesados do grupo Brick são China e Coreia do Sul.

Adotando o Gasto Bruto em Pesquisa e Desenvolvimento (GBPD) – agregando os investimentos públicos e privados em P&D – como fração do PIB como indicador, os autores determinaram que a China é o país com o sistema mais eficiente, gerando, em 2009, 185.100 patentes por ponto de GBPD, ante 45.900 da Coreia.

A Thomson-Reuters usa como parâmetro análise da União Europeia, que considera adequado um GBPD de 2% do PIB. Do grupo Brick, apenas a Coreia do Sul atinge – e excede – esse nível. Dos países do bloco, apenas China e Coreia vêm aumentando agressivamente seus gastos no setor. No caso brasileiro, o investimento apresentou aumento acentuado no fim do século passado, mas desde então limita-se a oscilar, ora um pouco acima, ora um pouco abaixo da marca de 1% do PIB, com leve tendência de alta a partir de meados da última década.

O relatório nota que, para a maioria dos países, a curva de aumento da produção científica não é acompanhada, de modo preciso, pela do aumento do número de patentes. “Para a Índia e o Brasil, tanto a publicação científica quanto as patentes vêm aumentando, embora os patenteamentos, mais devagar. Isso pode indicar algumas ineficiências na realização do retorno econômico da aplicação da ciência fundamental”, analisa o texto.

O perfil brasileiro é de “distribuição relativamente equânime” das patentes entre as tecnologias, com alguma ênfase nas ciências da vida, principalmente no setor farmacêutico, química orgânica e tecnologia médica, áreas em que a Índia também se destaca. A China tem preferência por setores de alta tecnologia elétrica e eletrônica, assim como a Coreia do Sul.

Investimento

Outro ponto em que o Brasil se diferencia do perfil dos demais membros do bloco é na forma como a pesquisa e o desenvolvimento são financiados no país. Dos países para os quais existem dados disponíveis – China, Coreia do Sul e Rússia – o Brasil é o único onde o setor privado contribui com menos de 50% do investimento em desenvolvimento tecnológico.

Na China, as empresas respondiam por 74% do investimento nacional em P&D, em 2010. Na Coreia do Sul essa participação era de 75% e na Rússia, de 61%.

A baixa taxa de investimento privado no Brasil é tratada como “anômala” no relatório, que levanta a possibilidade de que ela pode representar um reflexo dos altos níveis de investimento público, principalmente “na região de São Paulo”.

Capital humano

“Capital humano é o componente essencial da base de pesquisa e seu produto mais importante, porque pode levar suas competências (...) para outros setores da economia”, afirma o relatório, lembrando que recursos financeiros podem ser realocados com muito mais facilidade que recursos humanos.
“Mesmo pesquisadores estabelecidos precisam de tempo para desenvolver novas habilidades (...) portanto, a capacidade de pesquisa do Brick requer tempo para crescer”.

Para todos os países do Brick, a tendência é de aumento na participação de sua produção científica na parcela de 1% dos artigos científicos mais citados O levantamento da Thomson-Reuters aponta que a capacidade de pesquisa da Rússia encontra-se em declínio, enquanto que as de Brasil, Índia e Coreia do Sul estão em ascensão. A China, por sua vez, assistiu a uma queda acentuada no número de pesquisadores nos últimos quatro anos, depois de um aumento acelerado em meados da década passada.

De qualquer forma, o gigante asiático ainda domina o cenário, com mais de um milhão de pesquisadores considerados de tempo integral. Nos demais países do Brick, o número não ultrapassa 500 mil.

Imprensa Unicamp
Fonte Imprensa Unicamp 22/04/2013 ás 11h

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