Biomédica testa novos métodos para tratamento de queimaduras

Fonte Jornal da Unicamp 23/04/2013 às 21h

Biomédica testa novos métodos para tratamento de queimaduras

Nanopartículas poliméricas e de prata apresentam bons resultados em testes in vitro e in vivo.

Um desafio das pesquisas na área de cicatrização de queimaduras é o desenvolvimento de materiais que apresentem as características adequadas ao tratamento e que sejam produzidos com matérias-primas de baixo custo e de fácil obtenção. A nanotecnologia tornou-se a palavra de ordem nos últimos anos, por conseguir levar a efeito estes dois parâmetros.

A biomédica Larissa Barbosa de Paula enveredou seu estudo de mestrado, no Instituto de Biologia (IB), para essa direção, preparando nanopartículas de prata produzidas por método biotecnológico empregando o fungo Fusarium oxysporum, e nanopartículas poliméricas recobertas por quitosana e contendo S-Nitrosoglutationa (GSNO). A sua conclusão foi que tais tratamentos debelaram o processo inflamatório e possibilitaram o tratamento de lesões provocadas por queimadura.

Em animais de laboratório, após 14 dias de tratamento com géis contendo nanopartículas, as poliméricas mostraram uma redução no diâmetro das feridas maior que as de prata (AgNP). Entretanto, com mais sete dias de tratamento (21 dias), este quadro se inverteu: o diâmetro das feridas tratadas com AgNP estava menor que o das nanopartículas poliméricas. “Mas as duas cicatrizaram muito bem”, conta a pesquisadora.

Ao final dos 35 dias de tratamento, o grupo-controle (que recebeu apenas o gel) ainda sinalizava feridas, enquanto que nos grupos tratados com os sistemas nanoparticulados, as feridas já tinham sido cicatrizadas e, em alguns animais, chegou-se a registrar o crescimento de folículos capilares (pelos).

As nanopartículas de prata foram produzidas extracelularmente pelo Fusarium oxysporum, que possui mecanismos (não totalmente elucidados) para reduzir íons de prata, quando exposto a uma solução contendo este metal. São nanopartículas esféricas altamente estáveis e com elevada atividade antimicrobiana, essencial no tratamento de queimaduras, uma vez que a infecção é uma das principais complicações clínicas deste tipo de lesão.

 

De acordo com Larissa de Paula, os métodos adotados em seu estudo já existem. “Empregamos o método biotecnológico para a preparação das nanopartículas de prata e o método de dupla emulsão e evaporação do solvente para as nanopartículas poliméricas”, revela. “A inovação ficou por conta da sua aplicação em feridas provocadas por queimaduras.”

Ao mesmo tempo, ela encapsulou um composto formado por glutationa e óxido nítrico (GSNO) em nanopartículas preparadas com um polímero biodegradável-biocompatível e recobertas por quitosana (que também possui elevada atividade antimicrobiana).

Uma das maiores vantagens desse sistema é a de proteger o fármaco dentro do organismo e alcançar uma liberação sustentada, eliminando a necessidade de reaplicação e tornando-se uma alternativa às terapias de longo prazo.

O GSNO, já testado em feridas crônicas como de pacientes diabéticos, também nunca fora testado em queimaduras e demonstrou grande potencial de cicatrização nos experimentos. O recobrimento com quitosana, segundo a mestranda, além de proporcionar atividade antimicrobiana, permite uma maior permanência das nanopartículas em superfícies mucosas, prolongando a liberação do princípio ativo encapsulado.

TRATAMENTO USUAL

O tratamento mais usado nos hospitais é o creme à base de sulfadiazina de prata 1%. Entretanto, após sua aplicação, costuma-se ocluir a ferida com gaze. Por exigir trocas frequentes, este tipo de tratamento torna-se bastante incômodo e doloroso para o paciente.

Alguns produtos, como loções oleosas à base de ácidos graxos essenciais, gazes impregnadas com Aloe vera e membranas de poliuretano, constituem opções menos doloridas, por não aderirem à ferida. Todavia, são em sua maioria importados, elevando os custos do uso em larga escala nos centros de terapia para queimados. Estima-se que o Sistema Único de Saúde (SUS) gaste por ano cerca de R$ 55 milhões com tratamentos desses pacientes.

A biomédica explica que ambas as nanopartículas foram aplicadas nos animais duas vezes ao dia, sob a forma de gel que foi posteriormente absorvido pelo organismo, assim como as nanopartículas poliméricas. “É um dos métodos mais empregados na indústria cosmética e farmacêutica para o preparo de pomadas e cremes, por ser inerte ao organismo. É usado como um veículo para as substâncias”, explica.

A principal indicação dos géis contendo as nanopartículas desenvolvidas pela biomédica seria para o tratamento de queimaduras pouco graves e de pequena a média extensão. “Seria inviável para o tratamento de uma lesão que acometeu 80% do corpo, o que exigiria quantidades muito grandes do produto. Queimaduras muito graves e/ou extensas também podem acometer pulmões e outros órgãos vitais, diminuindo ainda mais a expectativa de vida do paciente, sendo necessárias medidas mais rápidas”, reforça Larissa.

CAMINHO LONGO

O trabalho da pesquisadora, orientado pela professora Patrícia da Silva Melo, foi aprovado pela Comissão de Ética no Uso de Animais (Ceua) da Unicamp e desenvolvido no laboratório do docente Nelson Durán, no Instituto de Química (IQ).

Além disso, todos os compostos passaram por testes de citotoxicidade antes da aplicação nos animais, garantindo a não toxicidade da concentração aplicada. Os testes foram feitos na Faculdade Metrocamp, onde a biomédica concluiu a sua graduação e hoje ministra aulas para o curso de ciências biomédicas.

Larissa de Paula reconhece que o caminho para chegar à etapa dos ensaios clínicos será longo, pois o processo deve passar primeiramente por testes in vitro e em animais (que são divididos em três etapas). Somente depois desta bateria de testes, vêm os ensaios clínicos, para que alguma empresa se interesse pelos produtos e eles cheguem à comercialização.

DADOS DE QUEIMADURAS

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as queimaduras constituem um dos maiores problemas de saúde pública. No Brasil, estima-se que aconteçam um milhão de acidentes com queimaduras térmicas por ano. Há apenas 10% de hospitalização e cerca de 2,5 mil óbitos em todas as faixas etárias, conforme informações da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ). As queimaduras também estão entre as causas primárias externas de morte, atrás apenas de causas violentas, como acidentes de trânsito e homicídios. Além disso, queimaduras graves prejudicam a integridade da pele, levando à formação de cicatrizes hipertróficas e queloides.

Juntamente com o trauma do acidente e os processos dolorosos de tratamento, as marcas deixadas pelas queimaduras acarretam baixa autoestima e ansiedade social aos pacientes, contribuindo para o desenvolvimento de doenças durante e após a reabilitação.

A literatura aponta um número considerável de pacientes que apresentam doenças como depressão e transtorno de estresse pós-traumático, que não voltam a trabalhar e que são passíveis de ressarcimento pelos sofrimentos psíquicos acarretados.

No Estado de São Paulo, há poucos centros especializados no tratamento de queimados: os de Paulínia, Sorocaba e São Paulo são alguns deles.

Publicação

Dissertação: “Nanopartículas poliméricas e de prata: avaliação da toxicidade in vitro e in vivo e do processo de cicatrização em animais submetidos à queimadura térmica”
Autora: Larissa Barbosa de Paula
Orientadora: Patrícia da Silva Melo
Unidade: Instituto de Biologia (IB)

Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 23/04/2013 ás 21h

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