Adesivo é novidade para tratar enxaqueca

Fonte Flávia Ghiurghi 05/03/2013 às 21h

Por Dr André Felicio, neurologista, doutor em ciências pela UNIFESP, membro da Academia Brasileira de Neurologia e clinical fellow da University of British Columbia no Canadá (CRM 109665)

 

Calcula-se que pelo menos uma vez na vida, todas as pessoas sentirão, no mínimo, um episódio de dor de cabeça, e entre as causas mais comuns destaca-se a enxaqueca, também conhecida por migrânea. Este tipo de cefaleia acomete preferencialmente mulheres entre 20 a 40 anos, mas pode ocorrer em qualquer faixa etária ou sexo, e interfere significativamente com a qualidade de vida, altera o humor e diminui a produtividade no trabalho.

 

A característica principal de uma crise de enxaqueca pode ser definida pela duração da dor (normalmente de 4 horas a 3 dias), lado dos sintomas (unilateral), característica da dor (pulsátil ou latejante), relação com atividade física (piora quando se movimenta, sobe escadas, etc) e, finalmente, pela intensidade da dor (moderada ou forte). Além disto, muitos dos pacientes referem que a luz e barulho incomodam, e sentem bastante enjôo, além de poder haver vômito. E são justamente estes sintomas gastrointestinais que muitas vezes atrapalham as medicações por via oral em uma crise de enxaqueca.

 

Há bastante tempo se conhecem os efeitos gastrointestinais da enxaqueca, por exemplo, a gastroparesia, que se manifesta com uma diminuição da peristalse e consequentemente pela diminuição da absorção de medicamentos. Assim, os enxaquecosos que sofrem rotineiramente com dor já perceberam que em situações de crise com muita náusea e particularmente vômitos a chance de um remédio por boca funcionar é pequena.

 

Pensando na gastroparesia e em uma maneira de otimizar a terapia das crises de enxaqueca, um adesivo que se coloca sobre a pele com uma substância conhecida (sumatriptano) está em fase final de testes nos Estados Unidos. A tecnologia usada neste adesivo (patch) não é muito conhecida no Brasil, baseando-se nos princípios da iontoforese, isto mesmo, i-o-n-t-o-f-o-r-e-s-e. E do que se trata isto? Este adesivo contém dois pólos, um positivo (anodo) e um negativo (catodo), e em cada um dos pólos diferentes sais, o sal de sumatriptano e um outro sal da solução. No meio destes pólos, duas baterias bem pequenas de lítio promovem a passagem de corrente elétrica de um pólo para o outro (anodo para o catodo, ou pólo positivo para pólo negativo) e esta passagem indolor e imperceptível de elétrons (corrente elétrica) nada mais faz do que esvaziar a pequena "bolsa" com sumatriptano lentamente ao longo de 4 horas.

Na prática, e fazendo uma tradução objetiva de toda a ciência por detrás deste dispositivo, o que ocorre é o seguinte: o indivíduo sente a dor e aplica o adesivo na pele. Neste adesivo, há um pequeno botão ou dispositivo que ele aperta e, após isto, uma luz vermelha acende. É um pequeno led vermelho que acende e pisca, bastando esperar esta luz apagar (normalmente 4 horas) para que o medicamento (sumatriptano) seja liberado diretamente na corrente sanguínea e sem passar pelo tubo digestivo.

 

Obviamente, a ideia deste tipo de tratamento é tratar as crises, ou seja, tirar o indivíduo de um quadro agudo de dor. Mas para aquelas pessoas que sofrem de enxaqueca crônica e dores constantes (diárias ou quase diárias) a melhor estratégia é a prevenção, com remédios específicos e até tratamentos mais sofisticados como a injeção de toxina botulínica em pelo menos 31 pontos específicos da região crânio-cervical.

 

Enfim, o presente e o futuro do tratamento da enxaqueca estão ou estarão em breve disponíveis no Brasil e certamente levam a promissores expectativas para o alívio de tanto sofrimento que este tipo de dor de cabeça provoca. Cabe reforçar, entretanto, que existem inúmeros tipos de cefaleia e que um profissional experiente deverá ser consultado para uma orientação adequada sobre cada tipo de dor e tratamento.

 

Flávia Ghiurghi
Fonte Flávia Ghiurghi 05/03/2013 ás 21h

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