A transcriação da realidade no cinema de Pedro Costa

Fonte Jornal da Unicamp 11/08/2014 às 10h

A transcriação da realidade no cinema de Pedro Costa

 

 

 

Analisar a transcriação da realidade e a fabulação do real nos filmes de Pedro Costa, que no início deste século foi elevado a cânone do cinema português contemporâneo. É este o tema da dissertação de mestrado de Maíra Freitas de Souza, graduada em estudos artísticos pela Universidade de Coimbra e que propõe uma sistematização da obra do cineasta. A pesquisa intitulada “Cinema Português Contemporâneo: fabulação do real em Pedro Costa” foi orientada pelo professor Francisco Elinaldo Teixeira e apresentada no Instituto de Artes (IA) da Unicamp. “Trata-se de um cineasta pouco visto no âmbito comercial lusitano, mas que alcançou destaque internacional em festivais e ciclos de exibição”, explica a autora do estudo. 

A partir dos filmes produzidos entre 1994 e 2012, Maíra Freitas sistematizou a obra de Pedro Costa em dois momentos, o bloco das Cartas de Fontaínhas e o da Poética das Artes. O conceito de fabulação, do filósofo Gilles Deleuze, foi empregado no primeiro bloco para procurar pontos de relação entre a criação cinematográfica e o universo real que circunda as personagens documentais – imigrantes cabo-verdianos em Lisboa; e, no segundo bloco, focando artistas durante o processo de criação. “O conceito de fabulação ajuda-nos a compreender a hibridez dos domínios cinematográficos (documental, ficcional e experimental). A partir da análise dos filmes, propus uma sistematização de sua obra, já que a maioria das publicações sobre este cineasta centra-se em filmes pontuais.”

Na dissertação são analisados seis dos sete longas-metragens de Pedro Costa e quatro curtas-metragens. No bloco das Cartas de Fontaínhas estão “Casa de lava” (1994) e a chamada “Trilogia das Fontaínhas”, composta por “Ossos” (1997), “No quarto da Vanda” (2000) e “Juventude em marcha” (2006), além dos curtas “Tarrafal” (2007), “A caça ao coelho com pau” (2007) e “Lamento da vida jovem” (2012). No bloco da Poética das Artes, alocam-se “Onde jaz o teu sorriso?” (2001), “Ne change rien” (2009) e o curta “6 Bagatelas” (2003). “O único filme que ficou fora da pesquisa é ‘O sangue’, de 1989, por ser uma ficção deslocada do restante de sua filmografia. O próprio cineasta aponta este longa como distante de suas intenções e contaminado por uma ideia industrial de cinema.”

Maíra Freitas lembra que Pedro Costa pertence à segunda geração de cineastas formados pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, que incentivava seus alunos a cultivar uma poética particular, através da figura do cineasta, poeta e professor António Reis. “Se visionarmos a obra, respeitando a cronologia da produção, a questão dos domínios torna-se central na poética costiana. Não me interessava questionar fronteiras ou métodos tradicionais, mas estudar como o cineasta agencia esses domínios, isto é, como se dá a transcriação da realidade em sua obra.” 

Segundo a pesquisadora, a recusa do método de produção industrial – grandes equipes, roteiro detalhado e a figura do produtor – levou Costa a buscar uma outra forma de fazer cinema. Há também a recusa de um cinema autobiográfico, por julgá-lo demasiadamente egóico, e ainda de construir filmes que documentem a existência de personagens sob um olhar paternalista ou eurocêntrico. “Eu quis entender como este cineasta entra na vida das pessoas – sejam moradores de uma favela ou artistas em produção – e extrai dessa relação filmes que, ao mesmo passo, são frutos e fatores da transformação das personagens”.

Pedro Costa, conforme a autora, diz ter configurado a sua poética em seu quarto longa-metragem (“No quarto da Vanda”). “Em 1994, ele foi a Cabo Verde rodar ‘Casa de lava’, que representa o ponto de encontro com aquela comunidade. Apesar de ficcional, é um filme mais aberto do ponto de vista narrativo, que valoriza as naturezas mortas, os espaços vazios, a rarefação dos diálogos; os personagens vão se construindo imageticamente. Voltou com cartas de pessoas que conheceu para entregá-las no bairro de Fontaínhas, uma favela de Lisboa.”

Após esse contato, Costa rodou “Ossos”, o primeiro filme da “Trilogia das Fontaínhas”, que na opinião de Maíra Freitas incorpora a hibridez entre ficção e documentário. “Ele abandona as paisagens e exteriores amplos de ‘Casas de lava’ para enclausurar o filme em cômodos fechados, onde circulam corpos moldados pela ficção. É o que chama de ‘estética das portas fechadas’: que o cinema, para Costa, fica interessante a partir do momento em que uma porta se fecha para o espectador. Ele mostra um mundo duro, onde intercede-se com as personagens, mas sem permitir ao espectador uma empatia com elas.” 

Para o filme seguinte, “No quarto da Vanda”, Pedro Costa conviveu por dois anos com Vanda Duarte, uma dependente de heroína que havia atuado como atriz amadora em “Ossos”. “É a obra de alguém que extrai beleza de um contexto terrível e que à época chegou a ser criticado como criador de ‘pornomisérias’. A partir do cotidiano daquelas pessoas, ele começa a forjar reencenações: por exemplo, grava uma conversa de Vanda com outro morador do bairro e, depois de alguns meses, pede que os dois refaçam aquele encontro que tinha sido espontâneo. Por isso, utilizo o conceito deleuziano de fabulação: não é realidade nem imaginação, é a construção de uma outra realidade, é a vida se fazendo outra enquanto é vivida”.

Em “Juventude em marcha”, que fecha a trilogia, Vanda surge renovada, deixou as drogas e vive no Casal da Boba, conjunto habitacional estatal para onde os moradores de Fontaínhas foram realocados. Maíra Freitas conta que o protagonista deste filme é Ventura, um cabo-verdiano que sofre o choque desta mudança, salientada por uma grande modulação estética. “Se na favela tudo é muito escuro e esverdeado, no conjunto habitacional tudo é muito branco e asséptico.”

Neste filme, Ventura retoma uma correspondência que Costa havia incluído em “Casa de lava”. Trata-se da transcriação de uma carta que o poeta francês Robert Desnos, preso em um campo de concentração nazista, escreveu em 1944: uma carta de amor, despedida e morte. “O que o cineasta e Ventura fazem é reconstruir em crioulo esta carta, que o personagem tenta rememorar durante o filme – é um resgate da memória cultural e também individual.”

“Juventude em marcha”, explica a autora, é uma frase entoada na revolta armada pela independência de Cabo Verde, na década de 1970. “Rancière escreveu um artigo, ‘Políticas de Pedro Costa’, tratando do radicalismo político de um cineasta que não explicita um discurso em seus filmes. São sempre fragmentos simbólicos e, conforme as personagens se constroem, a política se torna perceptível. Creio, inclusive, que está nisso grande parte do problema da recepção ao cineasta em Portugal, por aludir a um passado ainda recente.”

Maíra Freitas observa que dentre os três curtas-metragens incluídos no primeiro bloco, “Tarrafal” e “Caça ao coelho com pau” possuem praticamente o mesmo material compositório, que Costa rearranja para construir duas histórias distintas. “Tarrafal era uma colônia penal em Cabo Verde, para onde o governo salazarista enviava presos políticos; agora, os imigrantes é que vêm viver em Portugal uma ‘condição de prisão’. Em ‘A caça ao coelho com pau’ recorri a uma abordagem mais etnográfica, já que o título sugere costumes exóticos de determinada cultura, mas no fundo não há caça ou coelho algum: o filme trata de personagens deslocados no espaço social.” 

O curta “Lamento da vida jovem” integra o longa “Centro Histórico” e foi uma encomenda feita por Guimarães, quando a cidade sediou o evento Capital Europeia da Cultura. “Considero esse filme uma síntese das obras anteriores que têm Ventura como personagem. O curta é ambientado dentro do elevador de um hospital, onde Ventura, já muito doente, trava uma guerra verbal com um personagem alegoricamente construído como soldado da revolta armada e que tenta desconstruir seu passado; é uma narrativa de delírio, da luta por sua memória e contra seus fantasmas.”

 

Processo de criação

Do ponto de vista temático, a autora da dissertação constata uma fratura entre o bloco das Cartas de Fontaínhas e o bloco da Poética das Artes. “No primeiro, o cineasta intercede-se com personagens anônimos, que criam o seu próprio relevo a partir da singularidade de suas vidas; no segundo bloco, o cineasta intercede-se com artistas para construir filmes sobre o processo de criação.”

A pesquisadora explica que “Onde jaz o teu sorriso?” é fruto de um convite feito a Costa para produzir um episódio da série francesa “Cinéma de notre temps”, sobre os cineastas Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. “Costa usou o mesmo dispositivo dos ambientes fechados para, ao invés de biografar os dois cineastas, interceder-se com o processo de remontagem do filme ‘Sicília!’”. O curta “6 Bagatelas” traz seis cenas não utilizadas em “Onde jaz?”.

Concluindo, Maíra Freitas analisa o último longa-metragem de Pedro Costa, “Ne change rien” (Não mudará nada). “O filme trata do embate da cantora Jeanne Balibar com a sua obra, da dificuldade do ato de criação. Portanto, a música pelo olhar costiano é espaço para um ‘combate de morte’ em busca da perfeição”.

Jornal da Unicamp
Fonte Jornal da Unicamp 11/08/2014 ás 10h

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