A representação do urbano - a cidade do Salvador

Fonte Valdeck Almeida 19/11/2009 às 0h
O produto escolhido foram fotos da antiga fábrica de tecidos Fatbraz, publicadas pelos jornais Tribuna da Bahia e Bahia Hoje.

A publicação do Bahia Hoje, de 12 de dezembro de 1992, mostra as fachadas frontais do prédio e detalhes das janelas com grades, em quatro fotografias. A foto maior ocupa quase metade da página e destaca a fachada. O que restou da Fatbraz é uma fotografia com ângulo de baixo para cima, tendo ao fundo o céu azul contrastando com o avermelhado das paredes. O texto relata projetos de revitalização da fábrica, a qual seria transformada em marina. De acordo com o jornal, com o empreendimento, o local teria mais segurança para os turistas. A voz do poder econômico fala através do jornal. Esquece que o “perigo” que atingiria os supostos turistas é o mesmo que atinge os moradores nativos do bairro, os quais não são levados em conta. É como se eles (os nativos) não existissem. E, não existindo, o perigo da violência urbana não os atingiria.

A matéria relata um sistema de produção na Fatbraz semelhante ao das Casas Grandes & Senzalas espalhadas pelo país na época da escravidão: na fábrica de tecidos, trabalhavam famílias inteiras, até crianças, muitas vezes sem registro em carteira; os trabalhadores moravam em casas de propriedade da própria fábrica de tecidos, pelas quais pagavam aluguel; os armazéns também pertenciam aos donos da Fatbraz, e as compras dos trabalhadores nesses estabelecimentos comerciais eram descontadas diretamente do salário dos empregados da fábrica. “A gente acabava levando bem pouco dinheiro pra casa” (Eulina Freitas, Bahia Hoje, Salvador, 12.12.1992). Fazendo um paralelo com as denúncias de trabalho escravo que se vê na mídia atualmente, percebe-se que a exploração econômica não leva em conta o social, as relações familiares, a pessoa humana. Os empregados são meras peças de reposição que podem ser substituídas à medida que perdem o valor (força braçal) para mover a grande roda da economia. Provavelmente foi a queda nos lucros – como relata a matéria -, bem como a obsolescência da Fatbraz, cuja competitividade mercadológica declinou, que “justificou” o encerramento das atividades fabris em Plataforma. Outros mercados – do sul e sudeste -, como apurado em pesquisa para o trabalho “Comunicação Comunitária em Plataforma”[1], apresentavam maior lucratividade, com os quais a Fatbraz não conseguiu concorrer. O futuro dos trabalhadores e dependentes da Fatbraz não importaria muito. O que estava em jogo era a manutenção do status quo dos investidores e proprietários da fábrica. 

Já na fotografia do Tribuna da Bahia, em preto e branco, de 02 de abril de 1988, vê-se toda a frente da fábrica, em perspectiva. Aqui, a Fatbraz leva o nome de “Fábrica dos Catharino”, em alusão à família que controlou a produção de tecidos no bairro. A foto está inserida na matéria “Gente humilde, testemunhas de uma história”, fazendo par com mais duas outras fotografias (uma de parte da Praça São Braz – com uma mini-feira livre ao longo do meio-fio, com, no máximo cinco barraquinhas; e a outra foto mostra casebres da rua Úrsula Catharino. Esta rua segue em direção ao mar e vai até os escombros da Fatbraz, ao lado da praia e da linha de trem). A legenda da foto da fábrica é “O bairro tem um comércio ativo. Os casarões marcam o visual”. Esta legenda não reflete a realidade do bairro, cujo comércio é de pura subsistência, conforme apurado[2]; Os “casarões” citados no texto do jornal são apenas casebres. A principal foto, como dito, é da antiga fábrica de tecidos, hoje desativada. Na verdade, da Fatbraz só existem as paredes. As fotos ocupam duas colunas da página.

O texto da matéria é genérico e impreciso. Cita que: no bairro, tem “inúmeras” casas velhas”; “pessoas humildes que não sabem precisar sobre as datas”; “Desativada há muitos anos”; “a opinião de alguns moradores”. O texto peca pela falta de informações concretas e por citar fontes genéricas. Mostra o bairro como perigoso, “não obstante seu ar pacato e o jeito hospitaleiro dos membros da comunidade”. É a reprodução do estereótipo que a burguesia tem da periferia. O que poderia ser uma oportunidade de a mídia denunciar a falta de segurança e de infraestrutura do bairro, torna-se numa publicação rasa de conceitos pré-estabelecidos pela visão distorcida de quem nem conhece, nem faz questão de se aprofundar nos problemas crônicos de falta de administração da cidade. A violência que existe no bairro está ligada às drogas, de acordo com dados da Polícia Militar, no trabalho realizado para Comunicação Comunitária[3]. A violência maior, no entanto, é a falta de investimento em educação, saúde, lazer e transporte. Por se tratar de um bairro periférico, não somente no sentido geográfico, mas no sentido do acesso à cultura e, portanto, ao gerenciamento de políticas públicas inclusivas, a população de Plataforma é lembrada, principalmente, nos períodos pré-eleitorais.

O que tem em comum entre os textos do Bahia Hoje e do Tribuna é que os dois jornais expressam que a velha fábrica será reativada, transformada em Marina. Este projeto ainda não foi concretizado, mesmo passados mais de vinte anos da publicação das matérias. É a velha estratégia de alimentar o sonho dos moradores de trabalhar no local, o que adia ad eternum uma possível invasão dos terrenos baldios. O discurso da elite dominante não fica explícito, está nas entrelinhas, na reprodução de ideais que não dizem respeito aos anseios dos moradores do bairro. A marina seria mais um produto turístico e um serviço a ser desfrutado e acessível à camada social detentora do poder econômico. Aos moradores de Plataforma restariam, quando muito, funções de vigilância e limpeza – subalternas, portanto. Em pequena escala, a antiga Fatbraz voltaria a separar a “Casa Grande” da senzala.

Atualmente extinta, a Fábrica de Tecidos São Braz – FATBRAZ é uma referência do bairro Plataforma, localizado a 12 quilômetros do centro de Salvador. A Fatbraz foi fundada em 1875 pelo fazendeiro Almeida Brandão. A empresa fabricava tecidos e contribuiu para o povoamento e desenvolvimento econômico e social do bairro até meados do século XX (1959), quando encerrou suas atividades.

A memória dos tempos de apogeu continua viva na lembrança dos moradores mais antigos e de seus descendentes, através da tradição oral. O “Bloco do Bacalhau”, por exemplo, perpetua a história passada de pai para filho. Este bloco carnavalesco é formado basicamente por antigos trabalhadores da FATBRAZ.

As fotografias estão inseridas em uma representação do que foi o bairro na época em que ali era um dos centros fabris mais ativos do país. Nesse sentido, muitos dos moradores que trabalharam ou têm parentes e amigos que trabalharam na fábrica veem nos escombros do parque fabril as recordações vivas que teimam em atravessar o tempo. Nas paredes e entornos da velha fábrica estão incrustadas as lembranças da luta, da vida em comunidade, do convívio social surgido entre moradores e trabalhadores como enfatiza Serpa (1998b) em estudo realizado, no qual inclui depoimentos de ex-empregados da Fatbraz.

A imagem imponente dos escombros da fábrica impõe-se na paisagem à beira-mar, brilha num tom dourado ao sol do cair da tarde e se inscreve no imaginário popular como símbolo de um tempo que não volta mais, mas que deixou saudade. O conjunto de prédios do antigo complexo industrial é parte integrante da paisagem para quem passa de trem, de carro ou de barco pelo litoral do bairro e não pode deixar de ser visto, portanto. A luta para preservar a identidade local, no entanto, não está dormente. A associação de moradores do bairro não só ficou indignada como luta para ver implantado num dos prédios um projeto de cultura local, que envolva moradores, artistas e as instâncias governamentais. Contudo, um grupo alemão adquiriu a construção, que tem melhor condições de ser restaurada, e anuncia implantar um centro cultural mais apropriado aos visitantes do bairro e aos turistas que ali aportarem vindos através da Via Náutica.

Se isso se concretizar, o bairro perderá parte de sua identidade, pois os prédios da Fatbraz representam história para Plataforma. Dessa forma, a localidade teria mutilada parte de sua vivência, das experiências do povo, parte, também, da memória e do acervo cultural. O centro de cultura implantado por estrangeiros pode significar um transplante de algo que não pertence ao bairro com o qual os moradores não se identificam.

No imaginário popular, a Fatbraz é conceituada como símbolo de um tempo áureo, em que o povo do lugar era empregado e tirava dali o sustento da família, como relembra Alzira Lopes Carvalho. “Tinha feira perto da fábrica. Tinha também um armazém grande ali do lado da feira onde o pessoal da fábrica fazia compras” (SERPA, 1998b). Nada mais popular do que uma feira, onde moradores de uma localidade se encontram para mercar e também para dar e receber notícias dos seus entes queridos. A fábrica era o elo entre as pessoas, não só quando estavam trabalhando, mas, também, e principalmente, nos momentos de folga, lazer e compras. Por isso significa que mudar as características das construções e sua destinação com projetos de fora do bairro contribuirá, substancialmente, para corar ainda mais os laços de pertencimento e de comunidade que o povo de Plataforma possui.

Resta, ainda hoje, o sonho de que tudo volte a ser como antes. A imagem da prosperidade que reinava no bairro é uma grata recordação que fortalece o não esquecimento da Fatbraz como símbolo de um tempo em que o comércio de tecidos dava sangue novo às relações afetivo-sociais de moradores e comerciantes locais. As rendas geradas circulavam pelas famílias, o comércio era influenciado pela moeda e pelo consumo dos trabalhadores e descendentes deles. Essa ideia é transmitida de pai para filho, ainda hoje, nas conversas sobre emprego e desemprego. O bairro inteiro conhece a história da Fatbraz ou já ouviu falar da mesma e a maior parte dos moradores sabem onde ficam os prédios, ou tem algum parente ou amigo que ali trabalhou.

Ali, nos corredores cheios de teares, fios, a vida era tecida com muita conversa, dedicação e apego às raízes. Naquele espaço que hoje o mato consome, batia o coração de Plataforma, pulsante, bombeando sangue para todas as artérias, ruas, becos, quintais e mentes. Agora, resta a batida imaginária, que somente o olhar melancólico e os lábios sedentos de contar novidades conseguem sentir. Na AMPLA, associação de moradores, este imaginário tenta reconstituir, em pequena escala, o clima febril da fabril Fatbraz. Máquinas de costurar foram adquiridas e cursos de corte e costura foram implantados, na busca por sangue novo e nova fonte de renda para as mulheres rendeiras. Infelizmente, a sanha capitalista não enxerga iniciativas como essa e as máquinas pararam de roncar. Agora o que ronca são os estômagos das filhas e filhos das costureiras. O socorro à fome é dado pela creche das igrejas, que também alimentam o sonho de uma vida mais digna e cidadã para os habitantes do bairro.

No entanto, apesar da forte ligação que os locais têm com a Fatbraz, o imaginário está impregnado com a ideia dos grupos que dominavam e ainda dominam o bairro. A família Catharino, herdeira de grande parte dos terrenos onde se localizam as residências de Plataforma é temida, mesmo estando longe dali. Pouca gente tem coragem de acionar a justiça para adquirir os terrenos por usucapião e os Catharino têm conseguido tomar terrenos através de processos judiciais. A autoridade se faz presente pelos nomes de ruas batizados com nomes de familiares. Escolas e outros prédios públicos homenageiam a elite e simboliza, para o povo, quem manda e quem deve obedecer.

O poder constituído está presente. Sempre. Bairro de gente simples e de baixa renda, Plataforma respeita os terrenos e prédios da Fatbraz. Venera os escombros por medo de represália dos Catharino que, mesmo distantes dali, controlam as propriedades. Não há guardas nem vigilantes no local, mas há a força invisível, o poder que está e não está, mas que a tudo vigia, através dos olhos dos próprios moradores. Qualquer tentativa de ocupação dos espaços da velha fábrica será denunciada. Promessa de instalação de uma marina circula na imprensa, cai na boca do povo e vira lenda. O sonho de voltar a trabalhar na Fatbraz, mesmo que com outra atividade, alimenta a esperança e reforça o medo dos habitantes locais: se ocuparem o terreno com casas, não terão empregos. E assim a vida tece, fio a fio, o novelo do controle do imaginário de um povo.

A representação que a mídia faz da Fatbraz é reforçar a existência do poder de uma família sobre uma comunidade inteira. As fotos publicadas nos jornais reafirmam a presença dos Catharino no bairro Plataforma. A referência é a fábrica, ou os escombros dela, representada pelas fotografias em preto e branco, demonstrando que a história está viva, latente.

Para os moradores, a fábrica ou seus escombros representa a ligação do presente com o passado, a recordação de tempos áureos e o respeito a quem mandava – e continua mandando no bairro – o poder econômico.
Valdeck Almeida
Fonte Valdeck Almeida 19/11/2009 ás 0h

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